Odisseia dos círculos

O homem deve ter inventado a roda depois de olhar bem fundo nos olhos de alguém
Deve ter sido encanto enxergado no infinito de uma alma que tem janela
Os buracos negros que se escondem no fundo de cada olhar
O mistério em descobrir onde começa e onde termina o meu e o seu universo particular.

Deve ter sido com atenção
Com tempo
Com minuciosidade.

O homem animal se fez arte
E desenhou na parede círculos como olhos
Esculpiu olhares em forma de roda
Sentiu tudo girar.

Foi olhando nos olhos que o mundo evoluiu!

Redondos os glóbulos, as cabeças e os planetas
Redondas formas que compõem o universo
Nossas digitais impressas pelo mundo.

Os passos em uma valsa
Um filme dentro de uma lata
Um disco fora da capa.

As canetas esferográficas
Os anéis de compromisso
Os nós que insistem e ficam.

As entradas de um cenote
O contorno da Lua cheia
Uma antena parabólica
E as escotilhas para um paraíso.

Nossos círculos sociais
Nossas rodas de conversas
Os giros que vida dá.

Redondos os núcleos, caroços e interiores
Redondas flores, frutos e sementes.

As galáxias
O tudo
E os olhos
Que enxergam o mundo de maneira diferente quando olham com profundidade uns para os outros.


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Uma carta que você não vai ler

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Tem um pouco do seu olhar morando no brilho dos olhos de alguém que você nunca conheceu.
Tem um pouco do toque suave das suas mãos no abraço de algum amigo.
Tem o jeito do seu sorriso no meu sorriso pro espelho.

Há dias em que tenho a ilusão, outros não.
Há dias que você está vivo, mas há outros em que lembro que você morreu faz tempo.
Há dias que eu não penso.

Existe alguma música que só consigo escutar com você, de ouvidos bem atentos e olhos bem fechados. Eu quase consigo sentir o toque da sua mão gordinha, como quando eu tinha um medo e você me apoiava.
Tem muito de você em mim, coisas que eu não tive tempo de conhecer, mas eu ouvi dizer que são heranças suas.

Nós já não mais podemos nos falar, mas eu sei que de algum modo a gente se comunica. São meus pensamentos, minhas memórias e as projeções de coisas que nunca irão se tornar reais. Já pensei em coisas que poderíamos fazer hoje, como um almoço durante a semana, uma viagem de férias, uma passeio em qualquer lugar, um abraço.

Eu penso se seríamos bons amigos, eu acredito que sim. Penso que iria te visitar ou cuidar de você quando estivesse doente, nós comemoraríamos o seu aniversário no dia das crianças. Eu penso que seríamos grandes parceiros.

Hoje eu não posso ter nenhuma dessas certezas. Eu guardo os meus pensamentos algumas vezes ou, como hoje, eu escrevo. Quando eu leio em voz alta, parece que você poderia me ouvir. Da minha maneira eu te conto o que eu penso e como eu me sinto. Eu queria que você tivesse me contado o que você pensava e principalmente o que você sentia, poderia ter contato para qualquer outra pessoa.

Talvez, se você tivesse falado, hoje eu não iria dizer que já faz 15 anos que você se foi. 

Eu torço para que ninguém  mais cale os sentimentos, para não calar a vida antes do tempo. Que se possa viver e conviver com  todo e tudo o que ainda vem. Que se entenda que mesmo com a dor, a vida ainda pode ter uma razão de ser. Que não se pense em viver apenas nas poucas memórias e muitas projeções da cabeça de quem ficou, mas escolher viver para fazer acontecer, mesmo que seja um curto almoço num dia qualquer da semana.

Essa era uma carta, uma postagem, uma mensagem… Algo que você não vai ler, mas que alguém vai, alguém que ainda está por aqui, como há 15 anos você esteve. Essa é uma carta pra dizer que eu tenho aqui os meus ouvidos para ouvir, os meus braços para abraçar, meu colo para alguém que se sente como você se sentiu possa usar.

Essa é uma carta pra dizer que eu não quero ver ninguém desistindo. 

Eu ia postar no dia 26, mas quando se trata de viver, todo tempo é precioso.

Eu que não sei de ti

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Tive que reescrever versos
Trocar a cor dos tênis
O número do andar
Eu mudei a quantidade de dias que fiquei a esperar
Alterei a oscilação entre o inferno e o céu

Vamos escrever nossas próprias canções?

A gente podia apenas começar do zero
Sem nenhum rascunho
Esquecer todas as letras do passado

Você devia acreditar que somos capazes
Letra por letra, teríamos muita história pra contar

Sabe aquela noite que eu bebi demais e adormeci no sofá?
Sabe quando você tentou me ensinar a jogar vídeo game?
Lembra quando eu chorei?
Não… Foi aquela outra vez, que parecia fazer sentido…
Você não me perguntou nada
Eu não falei nada
Seu silêncio às vezes me terapia
Às vezes minha agonia

No seu silêncio eu já chorei, já gritei, me irritei, me despedi, parti e voltei

Eu já te disse adeus mais do que você pode sonhar
Você nunca percebeu que eu quase fui
Você nunca percebeu quando me levaram
Nem sei se um dia você vai saber que eu já fui de vez

Por que você não quis vir comigo?
Se você me leva, seria leve
Como vôo de beija-flor

Eu fico embaixo do céu estrelado
Até a música parar de tocar
Até o cigarro apagar
Até a boca secar
E o frio apertar

Eu  falo a verdade
Olho nos seus olhos
E faço sentir

Eu aprendi a dormir tarde
E você?
Vai dormir pra sempre?

5 anos e 2 malas

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8 de agosto, data de mais um rito de passagem na minha vida. Lembro-me bem, que 5 anos atrás, eu resumi minha vida em duas malinhas, peguei um táxi e fui pro aeroporto sozinha. Não teve abraço, não teve olhar pra trás… Eu me lembro de sentar na poltrona do avião e chorar como uma maluca, sem ter certeza de absolutamente nada que aconteceria dali pra frente, mas mesmo assim eu não desisti.

Por muito tempo eu chorei e choro até hoje. Durante esses últimos 5 anos, as minhas duas malinhas já não são mais suficientes pra carregar toda a minha bagagem. Sou grata por tudo o que passei pra chegar até aqui. Eu sei que é apenas o início de um caminho, mas nada teria acontecido sem o primeiro e dolorido passo. Muita gente, querendo me proteger, sugeriu que eu desistisse, mas eu aprendi que sou mais forte do que eu pensei que poderia ser. Nem sempre a coragem é de lutar, mas a resistência pra tomar umas porradas é grande.

Eu sou grata pelos amigos que eu conheci até aqui, pelos próximos e pelos passageiros. Cada pessoa que passou pela minha vida é responsável pelo que eu sou. Eu sou grata pelas palavras, pelos abraços, pelos sorrisos, pelas derrotas, pelo sofrimento, pelo medo, sou grata por todas as dificuldades que tive e ainda tenho, porque eu sei que elas maturam o sabor das minhas alegrais, das vitórias que chegam de mansinho, mas eu não deixo de saborear nada.

Que meus próximos 5 ou 50 anos, continuem sendo sempre de muito aprendizado, de otimismo, de sorrisos, mesmo que em meio à lágrimas, pois foi assim que eu aprendi a ser. Ser forte, ser sorridente, ser grata, independente da conduta dos outros, eu vou sempre acreditar na beleza que há nas pessoas, na bondade que pode existir no mundo, acreditar que o amor é capaz de ultrapassar barreiras inimagináveis. Gratidão!

Oi, meu nome é Leila com i

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Uns de vocês acham que eu tenho 15 anos, outros 35, outros tão pouco se lixando pra idade que eu tenho… Eu faço parte desse último grupo, aliás, depois dos 18, parei de me importar ou achar diferença.
Biológica, cronológica, verdadeiramente falando, eu tô completando 26 anos de idade, mas e daí né?
Eu gosto de música dos anos 60,70,80,90… Eu gosto de comida árabe, mexicana, mineira, aaaaaaaaaaaaah, que mentira, eu gosto de qualquer comida, eu adoro comer, eu adoro jiló.

Eu nasci goiana, cresci candanga, estou carioca, sabe-se lá o que serei daqui a pouco.
Eu tive um pai, eu perdi um pai, eu ganhei dois pais, umas cinco mães, uma dúzia de irmãos, eu sinto um tanto de amor fraterno.
Eu já quis ser freira, fiz experiência vocacional, eu quis ser jogadora de vôlei profissional e até hoje a minha família acha que eu sou jornalista.
Já morei com os pais, com os tios, com os irmãos, com primo, em republica, com uns velhinhos, sozinha, com marido e com filha.
Eu trabalhei em faculdade, em órgão público, em jornal, em agência, já abri empresa e agora em ONG.
Já tive cabelo rastafari e curto e médio e longo, só AINDA não mudei de cor.
Já fiz balé, joguei vôlei, handball, tênis de mesa, yoga e corrida, mas meu esporte predileto ainda é levantamento de garfo e copo.
Aprendi a usar vestido depois dos 18 anos, mas nunca deixei de me comportar como um pivete e tenho cuecas no meu armário, eu adoro dormir com elas.
Eu sou mãe da menina mais linda do mundo, mas eu fico me segurando pra não agarrar qualquer criança que passa na minha frente.
Eu tenho bisavô com quase 98 anos. Eu tenho menos de 1,60m de altura, eu uso protetor solar 60fps todo santo dia e eu tenho enxaqueca desde os 8 anos de idade.
Eu perco muitas horas de sono enquanto tento dormir.
Eu perco muitos textos que eu penso, pensando que poderia levantar pra escrever e nunca levanto.
Eu perco pelo menos um brinco por semana.
Perco a hora, perco o cartão de crédito, a identidade, esqueço pra quem emprestei os livros, esqueço as coisas no fogo e sempre esqueço de pedir ajuda.

Eu odeio ir ao médico, odeio que leiam os meus textos na minha frente e eu odeio ler o que eu escrevo depois que eu publico.
Eu amo música alta na hora da faxina e danço sozinha enquanto tento imitar desastrosamente a Beyoncé. Eu sou irritantemente bem humorada pela manhã, mas me alimente logo cedo.

Eu tranquilamente passo o final de semana todo sem sair de casa nem pra jogar o lixo fora. Eu amo viajar sozinha, eu sou apaixonada por fotografia e ainda quero aprender mais sobre isso.
Eu desejo morar numa casa, com jardim, porque eu gosto de terra, de planta, de espaço, de quintal. Eu não sei onde e quando vai ser isso, mas um dia ainda vai rolar, eu sei que vai.

Eu lembro de tanta coisa, eu também amo tanta coisa, eu ainda vou fazer tanta tanta tanta coisa.

Foi um prazer chegar até aqui. A gente pode se encontrar em breve?

Tempo pai

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Havia relógios em todos os cômodos da casa. Não havia tempo a perder, nunca havia tempo perdido. Hora pra acordar, tempo do banho, tempo de se vestir, hora de comer, os minutos até chegar ao trabalho, tempo de ligação, hora da reunião, tempo de espera na fila.
Tudo era tempo. As horas, os minutos e os segundos. Tanta preocupação em medi-lo, calculá-lo, planejá-lo. Sobrou pouco tempo para vivê-lo. Em alguns anos tudo estava no automático, como uma máquina, tudo girava pra fazer o tempo passar.
E foi sem atraso, sem imprevisto, sem desmandos, sem contra-tempos. O tempo se virou contra você.
Você foi embora e não levou muito tempo. Foi tudo tão rápido, segundos. Depois de alguns minutos já não era mais o mesmo, em 26 horas você já não era mais você, pouco mais de um dia e você se foi pra sempre. Já não há mais tempo pra contar, os relógios aos poucos foram sumindo dos cômodos da casa. Eles levaram embora, todo o nosso tempo. Todos os nossos minutos, dias ou anos. Tudo o que ainda poderíamos ter.
O seu tempo acabou. Por algum tempo eu não acreditei, eu esperei que voltasse, mas o tempo também me disse que já era hora de deixar partir, o tempo não ia voltar atrás.
E passou o tempo. 14 anos.
Eu levo o tempo gravado na minha pele, pra não me esquecer nunca mais. Nós tivemos um tempo. Você viveu o seu tempo, eu continuo vivendo o meu, medindo um pouco menos que você.
Já não importa mais quanto tempo faz, importa quanto tempo fez.
Eu amei o nosso tempo, nossos 11 anos, 10 meses e dois dias.
Eu vou te amar pra sempre, em todos os tempos.

 

 

Feliz dia do amigo

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A gente se fala pouco, mas nunca se fala por falar e eu acho que agora são umas 3h da manhã aqui, eu pensei que poderia falar com você, mas de um jeito diferente.
Sentar e dedicar meu tempo, escrever umas palavras para você, sem me importar se você vai visualizar e responder imediatamente. Eu apenas me lembrei de você e pensei em um modo de dedicar minhas palavras de maneira mais profunda. Parar e pensar.

Sinto saudade das nossas conversas, dos nossos abraços. Sinto saudade de rir de qualquer coisa com você. Algumas horas eu penso que sinto saudade de ser feliz e de não saber mais onde encontrar isso que me deixa bem de verdade.

Tudo vai se perdendo com o tempo e muitas coisas não tem mais volta, mesmo que a gente volte nos mesmos lugares, pras mesmas pessoas, nada mais é igual. A gente não é mais o mesmo. Tudo fica novo de novo o tempo todo e a saudade é a velha de sempre, só a saudade é eternamente a mesma.

A gente só pode sorrir. Rir do que fez, do que falou, do que pensou e de pensar de novo e diferente agora, mas rir… Sinto falta de rir mais com você, relembrando aquele nosso bom e velho tempo. Aquele lá que já foi.

Mas engraçado… Você também me faz ter esperança de que o que há de vir ainda será bom, que nem tudo se perdeu, mas que o essencial ainda está por aí… Está por aqui também.

Muitas coisas ainda virão, assim como muitas já se foram, mas tenho certeza de que algumas serão atemporais. São essas as que no conduzem no tempo, como uma linha que fica a beira de um caminho desconhecido para que a gente não se perca por completo.

Quando eu acho que vou longe demais, eu procuro a minha linha, para não me perder, para não me esquecer de quem eu sou ou fui e para compreender para onde eu devo ou quero ir.

Só queria dizer que esteja onde estiver, eu vou estar por aqui. Nas palavras, nos abraços, sorrisos, memórias e ao teu lado.

Eu te amo meu amigo.

A Vida Edifício

 
 

Eram três andares…

No primeiro deles, um casal de idosos. Ela já debilitada e nada fácil, vive sob os cuidados dele, que apesar da idade se desdobra.

No andar do meio, um casal com um bebê, jovens pais de um garoto lindo e travesso que aprendem com o dia a dia as dores e as delícias da vida de pais.

No terceiro andar, uma mãe e uma adolescente que tentam manter um diálogo entre seus planetas.

Pela manhã… No primeiro andar ele prepara o banho dela, enquanto a carrega no colo, orientando como ela deve ou não agir. 

No segundo andar, um deles prepara o banho dele, enquanto o outro com está ele no colo, esperando que ele também se comporte.

No terceiro andar, ela se prepara para o banho, enquanto espera que ela saia do chuveiro e aprenda como agir.

Ele grita com ela no primeiro andar, por não o esperar e levantar sem apoio.

Eles gritam com ele no segundo andar, por ele conseguir se levantar sem apoio.

No terceiro andar… Elas gritam…

No primeiro andar, ele a senta na mesa e serve o almoço a ela, assoprando pra que ela não se queime.

No segundo andar, eles servem o almoço para ele com todo cuidado para que ele experimente tudo e vá até o final.

No terceiro andar, ela espera o retorno da escola para servir o almoço e sentar-se com ela.

Há movimentos da vida em cima, no meio e embaixo, com prazos pra lá e pra cá. 

No primeiro andar, logo se ouvirá menos barulho e talvez ele e ela já não serão mais dois. No segundo andar, se ouvirão mais passos, mais vozes, mais risos, mais gritos, mais musicas e palmas e logo eles serão completos três. No terceiro andar, os planetas ainda se desalinham, até que um dia um deles descobre sua órbita é parte em busca da sua jornada.

Com o tempo todos os andares mudarão de ritmo, o que era cheio vai ficar mais vazio, uma hora todos se vão, para seguir seus caminhos e aí não são mais gritos de euforia, de discussão ou de orientação que irão dizer mais nada. Quando tudo encontrar seu tempo, vai falar mais o silêncio, de um olhar, de um abraço ou de saudade, mas não precisará mais barulho…

É nessa hora que os três andares não se diferenciam, porque a vida é questão de tempo e de tempos em tempos nos descobrimos outros, com nossos barulhos externos e internos aprendemos que a vida vai nos mudar de andar e a casa que eu habitei hoje, vai comigo pra onde eu for amanhã. 

Um edifício cheio de vidas.

Efeito Colateral 

Quando eu me prescrevi você, esqueci de dizer a mim mesma sobre os seus efeitos colaterais.

Eu não me contei que você causava arrepios, suor, delírios e dependência.

Eu esqueci de dizer que você poderia se tornar um vício.

E abstinência causa água na boca e visões quase reais.

Eu me contei que você era remédio, mas omiti que o abuso te transforma em meu veneno e eu abusei. Ah! Como eu abusei!

E agora é certo que vivo num mundo paralelo onde te procuro em bocas e becos.

Mas não se encontra fácil a versão mais pura desse sabor intenso.

E então… Água na boca…

E aí te encontro… Arrepios, suspiros, suor e vários delírios e antes que eu perceba… Já me encontram completamente alucinada e quando me dou conta, já não quero mais nada. E eu volto, não me trato.

E eu me vendo, sem me ver.

Eu me vendo sem te ver.

Eu me vendo te procurando.

Eu me vendo, te compro!

Eu – Meu

 

109 anos ou mais

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Tive a honra de nascer dotada desse espírito
Que comunga das alegrias e das tristezas do mundo
E se emociona com a energia que vem das pessoas
E encontra em tudo e todos o lado bom.

Eu tive a sorte de enxergar sorriso no meio da noite
E de brindar com a beleza que emana da vida.

Eu aprendi a dançar na chuva
E a cantar pra Lua
Eu aprendi a falar com as ruas
Que andam por mim como ando por elas.

Eu vejo as cores
Em cada dia e vejo ainda mais dias dentro de um só.
Não me aceito dentro dos meus 24 anos
Sendo em mim mais do que eu sou.

Eu tenho em mim
109 anos de histórias que não são minhas
Eu tive a sorte de sorrir até aqui
E esse anos não me pesam os ombros, mas me elevam os pés.

Flutuo entre universos que não pertenço
Mas como boa penetra, me sento à mesa, provo um drink e faço amigos
E se a vida for uma contagem regressiva
Eu tô pulando sobre os ponteiros.

Eu gasto o tempo que me gasta
E ainda não tem fim,
Nem meu tempo e nem esse texto
Porque são 109 anos ou mais que estão começando todos os dias.

Alice, Freud e José

Ela era apenas ela.
E o mundo novo se abriu sob seus pés.
Alice teve de crescer e ser pequena.
A situação pediu que fosse gente grande ou que soubesse lhe dar com sua pequinês em tamanho mundo.

Freud explique essa minha necessidade de falar sobre esse conflito de viver num limbo onde não se é grande o suficiente e nem tão pequeno assim.

Há um meio do caminho onde você ainda não pode caminhar só, mas não pode mais contar com a ajuda de alguém.

É esse ciclo astral ainda não completo antes dos 28 anos de idade. É esse mundo com um paradoxo temporal. Uma ampulheta que vira e desvira. Com e sem tempo. Muito e pouco. Suficiente e não o bastante.

José diz que ela é legal. Sabe conduzir as coisas e ainda lhe dá bom dia, mas José não sabe quem é Freud e nem deve ter ouvido falar de Alice. Ele abre os portões dos caminhos que eu faço e me saúda entre gorjetas e correspondências
É conveniente!

Alice cresceu… encolheu…
Brigou, com medo, mas enfrentou.
Esperavam que Alice conseguisse. E ela conseguiu. Foi por ela ou pelos outros?
Freud? O que me diz?

Um gato que sorri e desaparece também me deixa louca. Num mundo onde se caminha pelo desconhecido mesmo quando se sabe onde deve chegar.

O fim…
Que não justifica, mas transforma os meios.
Os meios que levam ao fim. Ou aos fins? Ou aos afins?
Quantas possibilidades eu tenho?
História escrita ou folha em branco?

José diria que tudo é o que é.
Freud acha que sou um animal dotado de razões imperfeitas e esses desejos que levam e trazem.
Alice não acha, não sabe, não entende… Vai…

E agora?
De Alice, Freud e José.

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O sorriso de Constança

Faltava dez minutos para as 7 horas da manhã, quando o celular tocou me fazendo pensar se eu estava acordada mesmo ou se ainda sonhava. Era Eduardo que respondia a mensagem enviada dois dias atrás.

Acordei, as 9h já deveria estar em Ipanema. Cansada, após chegar tarde do trabalho na noite anterior, andava pela casa quase me arrastando, tomei um banho, escovei os dentes, peguei a mochila e saí.

Entrei no metrô vazio, escolhi uma cadeira e me sentei. Numa outra estação o metrô ficou cheio e eu avisto uma senhora de pé. A cutuquei e ofereci lugar, ela sentou-se, satisfeita com o meu gesto ofereceu-se para levar minha mochila.
Eu ri e falei que estava muito pesada, ela mesmo assim insistiu. Eu cedi, mesmo ficando com pena dela, pois realmente pesava muito a mochila. Em outra estação o metrô fica vazio novamente deixando vaga a cadeira ao lado da senhora que carregava a mochila.

Se tratava de Constança, ou Maria Constança, uma mineira de Belo Horizonte, que nunca se casou ou teve filhos, que vive no Rio de Janeiro e agora depois dos 80 quer aproveitar a vida depois de ter criado os irmãos, sobrinhos e os pais.
Ela que viajou duas vezes à Brasília para visitar a irmã, dizia que amou conhecer uma cidade planejada, organizada e lamentava por ter esquecido os livros de história que a irmã lhe dera, contando sobre todo o plano da nova capital e sobre todos que ajudaram a construí-la.
Ela que também não sabia em qual parte da Rua São Clemente encontraria o ônibus que a levaria ao Humaitá, onde deixaria um presente para a filha de uma amiga de BH, trazido em sua última viagem.

Entre uma história e outra ela me sorriu dizendo que se sentia feliz por viver e poder ver tantos rostos jovens e bonitos e poder sentir uma energia boa que as pessoas possuíam. As nossas mãos se tocaram em gesto de agradecimento, já chegava a estação de Botafogo onde ela desceria.
Constança levantou-se, se colocou ao meu lado, sorrindo, repetiu meu nome (Leila) vou me lembrar de você nas minhas orações.

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Eu sorri, agradeci e dentro de mim falei: Constança, vou lembrar-me de seu sorriso de menina.

Extra

Esperar pelo extraordinário sem perceber que o ordinário se sobressai por ser assim tão comum.
Comum como um dia qualquer que nos mastiga com rotina. Como o vai e vem das barcas logo ali na estação, que levam e trazem histórias diariamente. Atravessando águas já tão atravessadas. Assim como eu que vivo das águas, ruas, dores e amores que me atravessam.
Vivo dos risos, choros, soluços, gritos e sussurros que esboço.
Eu que como qualquer ordinário dia comum, sou caos e silêncio, fumaça e som, escuro e total solidão.
Nada de extra e nem demais. Comum como as coisas que movem a vida, como todas artérias em funcionamento, como ar que circula de lá até aqui.
Apenas o ordinário imperceptível aos olhos menos atentos.
O tão trivial cotidiano, o amanhecer e anoitecer de dias de sol e de chuva e noites com ou sem lua.
A frente e o verso de uma capa de livro qualquer, que não se mostra tão interessante quanto o avesso que pode contradizer.
É só o que julga a primeira vista…

Nada de extra… Até que se enxergue com outros olhos.

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Fermentando

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Não nasci pra viver as coisas tão mais comuns
Pra ter uma vida pacata e normal
Ainda que eu não escolha, sou mais uma icógnita do que a inércia

A necessidade de estabilidade não sobrevive perto da minha curiosidade pelo novo
A certeza única é a de que nada é tão certo assim
As coisas mais duráveis acabam em minutos

As coisas que se prolongam demais acabam esquecidas pela monotonia em que elas mesmas se afogam
O apego é uma bomba relógio para saúde de quem vive
A vida é trânsito, fluxo, trocas
Idas, vindas, passagens, rumos que mudam sem parar

A coisa mais sensata a se fazer na vida é viver
E deixar que o tempo continue a agir da sua maneira e dar a cada um seu sabor

Passam

O que fica do que vai?

Os móveis, as roupas, as fotos.
Os traços, alguns recortes velhos guardados e espaço cheio de completo vazio.

Fica tanto que chega parecer que nem deixou de ser. Parece que ainda está aqui. O que fica quando a gente não quer deixar ir embora.

Mas que senhor é o tempo, que leva instante a instante cada gota de tal tormento. O tempo parece vento que faz folha seca voar, subir e sumir até que longe ninguém mais possa enxergar.

Aí esvazia e enche de novo, trás o novo, tira o cheiro de mofo e vem ar de primavera com flores novas e fim de tarde ao som do mar. Até em quem já ficou bem velho, tem sorriso de moço.

O que fica realmente fica, mas não fica do jeito que já era.
Faz-se de todo dia um novo guia, pra seguir caminhos por onde nunca se foi.
É a caminho do novo que você percebe que um passo errado as vezes leva ao rumo certo e que o plano inicial não leva a um destino final.

O que fica, fica… Mas fica dentro da gente. A gente vai pra todo lugar, como as folhas que o vento levou. E no fim de tudo, a gente vai…

O que fica do que vai é a certeza de que o que ficou uma hora também vai.
Somos passageiros!

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A garota do tempo

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Meu último texto falava de sol, lua, noite e tempo. Acabei por relembrar outra parte da minha vida.

Desde criança eu tive fascinação pelo clima. Lembro-me que aos 7 anos de idade ganhei um complexo livro sobre meteorologia e passei a desfilar com ele para cima e para baixo, toda orgulhosa de conhecer as condições climáticas, distinguir  o nome dos aparelhos usados para medir o vento, a chuva e etc e tal. Cheguei a cogitar a ideia de trabalhar com meteorologia.
Bem pouco depois a ideia fixa de ser jornalista me pegou e nunca mais me abandonou. De fato, nunca me tornei meteorologista e nem jornalista.

Toda vez que assisto o noticiário me interessa muito saber a previsão do tempo. Atenta, eu sempre fui daquelas que alerta: “Leve o casaco que hoje vai fazer frio”, ou então “Cuidado com a chuva”…
Já fui motivo de piada, mas ainda hoje sei o nome da garota do tempo de cada noticiário. E elas estão cada dia mais interessantes, soltam piadas, dão suas opiniões pessoais sobre o clima, exalam trocadilhos e até sugerem que vinho e fondue são a pedida para o inverno gaúcho. Só faltam sugerir que não fiquem solteiros em São Joaquim e tirem as camisas no Rio de Janeiro. Eu gosto delas.

Na minha adolescência fui viver em Brasília e a curiosidade com o tempo virou paixão pelo céu, durante um bom período me tornei aquela que sempre tinha uma câmera na mochila e todos os dias registrava o céu da cidade, o pôr-do-sol sempre tinha várias cores. Tive um grande amigo que foi meu companheiro em muitos fins de tarde e conversávamos por horas, deitados na grama e olhando para o céu. Em seguida, entrei na faculdade de administração, que também não concluí, mas tive uma colega de curso que trabalhava na ANAC e justamente com a bendita da meteorologia e em algum seminário da faculdade ela falou de sua profissão e me explicou o que era CAVOK e graças a ela também, eu até hoje sei diferenciar uma cumulus nimbus de uma outra nuvem qualquer. Obrigada Ludmila…

A raiz de toda essa curiosidade pode ser o fato de acreditar que essa seja uma forma de prever o futuro, de saber o que esperar do amanhã, talvez alguma necessidade de segurança dentro da incerteza que é a vida. Se não somos capazes de ver a vida amanhã, saibamos pelo menos a cor do céu para enfrentá-la.

Pode ser que seja um jeito de fazer analogia com a minha vida. No fundo  no fundo eu seja a garota do tempo que alguns dias queira anunciar que está tudo ensolarado e outros dias as nuvens carregadas vão aparecer. Tão passível de dias nublados e com possibilidades de pancadas de chuva, ou então de tempo bonito sem nenhuma nuvem e noite estrelada…

Há a mulher de fases, porque eu não seria a garota do tempo? Talvez seja…

Eu ainda sairei por aí preocupada em informar que os casacos deveriam estar nas mochilas, ou que mais tarde irá chover. E me informar se o final de semana será de lindo sol, mesmo que eu não vá a praia, ou eu me aborreça se terá muita chuva e vento, mesmo que eu também não tivesse plano algum. Só por saber mesmo.

Eu sou a garota do tempo… Do tempo que me pertence.

Caducando

Só me dê um tempo pra eu ver se o tempo passa em mim, ao passo que descubro onde levarão meus passos sem tempo.
Me dê um tempo para que eu pense pensamentos vagos que querem se preencher ao longo do tempo.
Então quero um tempo, um tempo que não passe como o tempo passado que não me deu futuro.
Corro atrás do tempo, que é tempo de viver sonhos mortos prematuros.
Queria só um tempo, pra concertar no tempo os erros que tempo nenhum é capaz de apagar.
Mas já que não há tempo, que possa eu construir em um novo tempo um lugar seguro.
Só sei que ainda há tempo, e hoje é dia de viver, e que o tempo não passe sem que eu seja nele um ser mais maduro.
Viva a vida em todo tempo.
Tenha tempo para fazer o que não deu tempo.
Seja tempo para ouvir o que for acalento.
Ganhe tempo pra distribuir ao longo do tempo.
Seja vida, seja viva e não se sujeite a tudo na vida.
Não seja sujeito o tempo, nem me sujeite eu ao tempo, mas seja eu o sujeito decisor do meu tempo.
ImagemFoto: http://www.flickr.com/photos/leylaguimaraes/6661115491/sizes/l/in/photostream/

Cinco minutos

Fiz cinco minutos de silêncio em meio aquele caótico som ambiente do mundo inteiro. Consegui me concentrar apenas no som que fazia uma lágrima que escorrendo pelo rosto, caía no chão cinza e frio. Aquele som mudo que foi capaz de emudecer tudo, aquele segundo que parece ter durado mil horas.

Fiz cinco minutos de silêncio para ouvir o que nada me deixava ouvir e tentar entender o que nada queria me falar. Então foi assim que descobri que cinco minutos eram muito importantes para que eu pudesse ouvir nada e fazer nada e apenas ficar ali esperando por nada.

Foi assim que eu vi, nada era tudo, era tudo que eu precisava. Eu só precisava fazer nada e esperar, e ouvir e pensar, tudo absolutamente nada. E cinco minutos passaram e eu descobri que nada era o tempo, o tempo que eu tanto queria, o tempo em que tudo muda e o tempo em que tudo passa.

Mas para tudo foi preciso nada, o meu nada, nos meus cinco minutos que pareceram mil horas.

 

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De si

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Cada um sabe o que grita no seu silêncio e compreende o motivo pelo qual cala.
Sabe cada um de si quando a pauta é o que vem de dentro. Conhece cada indivíduo o seu próprio labirinto, os caminhos que trilha e os caminhos que nunca trilhará.
Entende cada um os motivos de suas recusas ou de seus aceites.
Ninguém é transparente a ponto de não ter algo a ser descoberto. A cada passo somos alguém em um novo lugar. Nada que te define hoje pertencerá para sempre, porque a vida de ninguém permanece inerte ainda que escolha assim ficar, se nada muda em você, tudo muda a sua volta e o mundo muda sem parar.
Não é permitido ser sempre  o mesmo e dizer: “-Sou assim e nunca vou mudar!”. Muda você por si só ou muda o mundo e te deixa parado em algum lugar do passado.  
Nas escolhas que você faz, opte por olhar para frente e para lá seguir. Não conte aos quatro ventos sua alegria ou sua tristeza, mas aprenda com elas a caminhar e se fortalecer.
Não tenha medo de mudar e mude para melhor.

A Lógica da vida ou a Bio Lógica

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Todo mundo fala sobre o equilíbrio, a necessidade da temperança em todas as coisas, o ponto médio, o meio termo, a medida. A gente expressa de mil formas e com mil expressões, usamos e repetimos sempre a mesma coisa, mas nem sempre nos damos conta dessa medida real.

A vida tem uma lógica com um sentido tão comum quanto a fisiologia…
Há momentos de picos de êxtase, muitas emoções, muitas alegrias, muitos sorrisos, muitas festas, muita coisa boa. Muita coisa que é muita… Nesse momento todo o combustível é queimado com mais velocidade.
Há outros momentos em que tudo desacelera, tudo fica tedioso, chato, sem novidade, massante, rotineiro. O ritmo fica tão lento que parece que o tempo passa muito devagar e os momentos são tortuosos. É exatamente nesses momentos que se explica a ligação com a fisiologia… Como no metabolismo, onde quando o corpo entende que você precisa de reservas, ele poupa, nessas horas as boas memórias são exatamente assim.  Você precisa se lembrar das coisas boas que já aconteceram pra que possa ser impulsionado a superar os momentos difíceis.
Boas memórias são como as reservas que te suprem as necessidades nos momentos de crise, relembrar que tudo nem sempre foi tão triste, tão ruim. É importante saber que você, a mesma pessoa entediada de agora, já esteve na companhia de pessoas muito boas, em lugares fantásticos e que essa também é parte da história da sua vida e que foi maravilhoso poder viver e construir tudo isso.

Toda fuga de rotina só é boa se houver uma rotina…
Tudo que é fenomenal, maravilhoso, incrível, fantástico e todos os outros adjetivos só tem essa qualificação se existir o comum logo ao lado de cada um deles. A partir do momento em que a vida se torna só o SUPER, o super vira o comum e o comum vira o chato e aí deixa de existir.

É preciso uma pitada de sofrimento para humanizar a vida, só a felicidade é capaz de te desligar do mundo real e te fazer perder a capacidade de desfrutar do que é bom.
Os momentos não tão bons podem ser a incubadora de outros grandes feitos… Quem sabe não é a partir daí que um certo click acontece para iniciar um outro renascimento, mudando a fase, começando outro ciclo.

Que você entenda melhor o seu “metabolismo vital” e que saiba usufruir dos seus momentos bons e ruins. Que aproveite cada um deles e que se sinta feliz por ter a capacidade de viver tanta coisa.
Construa sempre coisas boas a partir de qualquer experiência e conte sempre com as pessoas boas e as que te fizeram aprender algo e também as que você teve a felicidade de encontrar na vida. Conte com elas ao seu lado ou nas suas memórias, tudo sempre será útil!

 

 

 

ao meu melhor amigo com carinho.