Existo ou vivo?

posto-logovitamin-sea
Depois de ler na rede a notícia chocante de um suicídio transmitido ao vivo e observar, me peguei pensando se hoje em dias nós ainda vivemos experiências íntimas, aquelas que guardamos pra nós, com alegria ou com tristeza, mas que pertencem a nós e que não necessariamente temos a obrigação ou impulso de tornar públicas.

Não que eu ache que as experiências não devam ser compartilhadas, sem dúvidas elas devem, por isso eu tenho um blog, por isso eu escrevo, por isso vemos TV, por isso acompanhamos os vlogs e etc, mas até que ponto esse nível de exposição digital é saudável e real e por que também não temos nos abraçado mais?

Por que não temos nos sentado em algum banco no final da tarde para contar aos nossos amigos como anda a vida, como foi o dia, mas dizer como foi de verdade e não como queremos que alguém pense que tenha sido. Quando foi a última vez que você foi a praia, deu um mergulho, observou o mar e não levou o telefone?

Quando foi a última vez que você conversou com um estranho sentado ao lado? Quando foi a última vez que você fez silêncio? Quem foi a última pessoa que não se importou em ouvir o que você tinha pra dizer com o olhos? Será que a nossas relações humanas têm sido, de fato, humanas?

Anúncios

Cinco minutos

Fiz cinco minutos de silêncio em meio aquele caótico som ambiente do mundo inteiro. Consegui me concentrar apenas no som que fazia uma lágrima que escorrendo pelo rosto, caía no chão cinza e frio. Aquele som mudo que foi capaz de emudecer tudo, aquele segundo que parece ter durado mil horas.

Fiz cinco minutos de silêncio para ouvir o que nada me deixava ouvir e tentar entender o que nada queria me falar. Então foi assim que descobri que cinco minutos eram muito importantes para que eu pudesse ouvir nada e fazer nada e apenas ficar ali esperando por nada.

Foi assim que eu vi, nada era tudo, era tudo que eu precisava. Eu só precisava fazer nada e esperar, e ouvir e pensar, tudo absolutamente nada. E cinco minutos passaram e eu descobri que nada era o tempo, o tempo que eu tanto queria, o tempo em que tudo muda e o tempo em que tudo passa.

Mas para tudo foi preciso nada, o meu nada, nos meus cinco minutos que pareceram mil horas.

 

Imagem

Um conto que te conto

Ela acordou no meio da noite, mas ainda tinha sono e sentiu frio e vazio.
Ouvia do lado de fora o som que fazia o vento e entendeu que logo a tempestade chegaria.
Esperou e inspirou como quem se prepara para atirar-se ao precipício,
como que pensa no que não tem a perder,
como quem não tem vontade de olhar para trás.

Ela caminhou até a sala, pegou um cigarro na bolsa, acendeu, sentou e contemplou a sombra que a luz do lado de fora da janela fazia no chão enquanto fumava.

Não lhe restava muito a fazer a não ser pensar e esperar que o dia amanhecesse. Compartilhava suas ideias com o barulho de tic-tac do velho relógio e com a marcação de tempo que suas unhas faziam sobre a mesa do telefone.
E enquanto marcava o tempo, o tempo deixava nela marcas.
Quando viu o sol raiar, botou o rosto a mostra, ainda com suas olheiras enormes e seu gosto de café amargo na boca, ela olhava as faces, ainda sonolentas e enxergava que no meio de tanta distração era possível passar despercebida.

Ela se misturou a tantos outros apáticos zumbis que cumprem sua missão rotineira de não serem nada mais além do que personagens secundários das suas mórbidas vidas. E ela seguiu o fluxo, perdendo a oportunidade de se transformar na mensageira e transformou-se apenas em mais um captadora da mensagem e para isso a única coisa a fazer é não fazer nada.

Fazer nada é mais fácil e ela preferiu o que era fácil!

Imagem