As histórias que escrevemos

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Eu estava aqui pensando sozinha essa hora da noite, sentada com os pés sobre o banco, olhando para os móveis da sala, analisando aquilo que estou cansada de enxergar e conhecer. E é dentro dessa mesmice que eu me encontro com você.

Hoje eu te reconheci no cheiro de um incenso, foi estranho e lindo. Eu pensei um outro “talvez“, um “e se‘, até me convenci de um “nunca vai ser“.

Depois eu parei pra escrever. tentando não esquecer, que as tantas histórias que escrevemos, entre tantas novidades, podem desaparecer. E eu penso nos textos que eu vomito pro mundo, tornando um pensamento livre em um prisioneiro das minhas palavras e eu te prendo aqui de novo, numa história escrita nova. E na escravidão da minha lembrança, eu me liberto na minha palavra. Aquela que raramente eu releio ou revivo, mas que de algum modo eu sei da existência, afinal, nasceu de mim, já foi um pedaço meu.

Cada vez que você renasce nos meus pensamentos, eu te vivo, te sorrio, eu te perco, você morre e eu volto a te enterrar com pontos finais.
Cada vez eu te deixo a lembrança que das histórias que a gente imagina na vida, nenhuma surpreende mais do que a vida que a gente segue escrevendo com histórias.
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Quando você foi

Fiquei parada de frente pro nada dessa sala, olhei para o teto, para as paredes, e para a janela de frente para a rua. Essas parede nuas guardaram tantas histórias, tantas coisas nossas, tanto riso, choro, barulho, conversas… Já vivemos tantas coisas aqui.

Todos os quadros das capas dos discos do Pink Floyd, fotos dos Beatles e os bonecos do Star Wars. O abajur que podia ter qualquer cor, mas que na maior parte do tempo tinha uma cor só.

Lembro de quando chegou o sofá novo e você cheio de cuidados para eu não fazer nenhuma besteira. Lembro do jogo que você me mostrou, aquele de atirar bolinhas pretas na tela toda branca, eu não faço ideia do nome, mas eu me lembro. E de quando comprei utensílios pra sua cozinha no dia das crianças, o meu primeiro episódio de Breaking Bad, o documentário sobre o acelerador de partículas, com você cochilando, e até o dia que eu fiz sopa de lentilhas pra uma semana. 

Eu já cheguei de dia, de tarde, de madrugada, já saí cedo, já te acordei pra fechar a porta que não se fechava sozinha e já fomos de metrô. Já passamos final de semana vendo TV, enrolados num cobertor e já aproveitamos um dia ensolarado de verão na praia.

Eu tenho tantas recordações suas, coisas que você nem se lembra mais. Você estudou teatro, produção musical, encarou rotina de ponte aérea, perdeu uma, duas, três ou quatro carteiras e dois passaportes, e eu liguei pro posto de gasolina pedindo informações. A tulipa que você trouxe da Holanda, brotou, mas depois secou, eu nunca soube como ela sobreviveu tanto naquela lata. Todos os hiatos, todos os fins de hiatos. Todas as frases que viraram bordões e Todas as músicas que já ouvimos juntos, e que por dias foram meu mantra para me encontrar em algum lugar onde eu estivesse sintonizada a você.

Todos os objetos esquecidos e devolvidos, os desaparecidos e os sequestrados. Todas as nossas conversas, os áudios, as conferências e toques na porta.

 O dia que eu fiquei perto do parapeito da janela e você me contou sobre uma menina da sua infância. O dia que você passava vendo TV com seus pais. As lindas histórias de vida da sua avó.

Você foi assunto pra muitas conversas, pretexto pra muito choro, razão de muita dúvida, lembrança de muito sorriso e conteúdo pra muito texto que eu criei e recriei. Você sempre foi inspiração. Quem foi tanto, nunca vai deixar de ser alguma coisa.

Do lado de fora da porta dessa sala, eu não sei como será a vida, não sei o que pode acontecer, não há garantias, nem certezas, mas eu tenho meus palpites, minhas aspirações, meus pedidos. 

Peço que o mundo seja gentil, que a saudade não castigue tanto, que as lembranças causem sorrisos. Que o vazio que o espelho reflete seja só o do imóvel, jamais o de nossa vida.

 Que você continue a habitar minha história, meus pensamentos e pra sempre, meu coração.

Tempo pai

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Havia relógios em todos os cômodos da casa. Não havia tempo a perder, nunca havia tempo perdido. Hora pra acordar, tempo do banho, tempo de se vestir, hora de comer, os minutos até chegar ao trabalho, tempo de ligação, hora da reunião, tempo de espera na fila.
Tudo era tempo. As horas, os minutos e os segundos. Tanta preocupação em medi-lo, calculá-lo, planejá-lo. Sobrou pouco tempo para vivê-lo. Em alguns anos tudo estava no automático, como uma máquina, tudo girava pra fazer o tempo passar.
E foi sem atraso, sem imprevisto, sem desmandos, sem contra-tempos. O tempo se virou contra você.
Você foi embora e não levou muito tempo. Foi tudo tão rápido, segundos. Depois de alguns minutos já não era mais o mesmo, em 26 horas você já não era mais você, pouco mais de um dia e você se foi pra sempre. Já não há mais tempo pra contar, os relógios aos poucos foram sumindo dos cômodos da casa. Eles levaram embora, todo o nosso tempo. Todos os nossos minutos, dias ou anos. Tudo o que ainda poderíamos ter.
O seu tempo acabou. Por algum tempo eu não acreditei, eu esperei que voltasse, mas o tempo também me disse que já era hora de deixar partir, o tempo não ia voltar atrás.
E passou o tempo. 14 anos.
Eu levo o tempo gravado na minha pele, pra não me esquecer nunca mais. Nós tivemos um tempo. Você viveu o seu tempo, eu continuo vivendo o meu, medindo um pouco menos que você.
Já não importa mais quanto tempo faz, importa quanto tempo fez.
Eu amei o nosso tempo, nossos 11 anos, 10 meses e dois dias.
Eu vou te amar pra sempre, em todos os tempos.

 

 

Testamento

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As coisas acontecem!
E quando menos se espera o que era tristeza vira alegria, o que era solidão vira companhia e até o que era verdade vira mentira.
Tanta convicção sem razão de ser.
Tanto signo sem significado algum.
Tanto tanto que é um tanto demais.

Eu sou tão pequena e o mundo é tão grande e o tempo é tão maluco que move esse mundo em freqüências variadas e intermináveis. Uma sempre sucedendo a outra e nenhuma é igual por mais parecida que seja.

E eu gosto assim, da vida que varia, que muda toda hora e me muda o tempo todo. Me faz todo dia um outro alguém, melhor que ontem ou não, mas sempre aprendendo e vivendo mais.

Que as coisas aconteçam então…
Eu não tenho força para impedi-las, apenas desejo delas desfrutar e quando um dia eu não aqui mais estiver, que lembrem-se de mim como alguém que a vida viveu e nada mais…

Talvez sem significado para alguns, mas com muito sentido para outros. Fico na lembrança daqueles que não irão decorar meu nome, mas sorrirão ao lembrar da minha risada boba e descontrolada.
Fico no coração daqueles que me viram algumas vezes caminhar e olhar para trás com um tchau de saudade de quem partiu querendo voltar logo.
Eu também fico nas palavras que eu deixo escritas e essas nunca vão morrer, nunca vão envelhecer, nunca perderão o sentido…
Eu espero que não, pois em todas as freqüências da vida, foram elas que sempre estiveram, estão e estarão comigo… Testemunhas das coisas que eu penso, das que eu digo e até das que eu não digo, por medo, vergonha ou falta de oportunidade.

E é isso que eu deixo…
Um desejo enorme de que não deixe nada demais, mas que sinta plenitude nas coisas que eu realizei, pois é aqui e agora o meu tempo e nada mais!

 

Nova estação

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Quando paro pra pensar me pergunto se tudo que eu escrevo não é melancólico, nostálgico e saudoso demais e sempre acabo chegando a conclusão de que é sim! Devo ser um tanto quanto chata, repetitiva e quem sabe até melosa demais…

Fui rever os meus motivos para me repetir tanto na explanação dos mesmos sentimentos e descobri…

…Eu me sinto extremamente feliz por sentir saudade e não é algo que me faça mal, ao contrário, me faz muito bem! Eu seria incapaz de sofrer por sentir saudade e seria incapaz de sentir saudade de algo que tenha sido ruim e sem proveito. Sentir saudade é bom, só o que é bom ou deixa uma boa lição é capaz de marcar a vida o suficiente pra merecer ser revivido em memórias, pelo menos nas minhas…

Guardo com orgulho as boas histórias que vivi, que me contaram, que li, que assisti e até das que eu sonho viver ainda.

Viver de saudade não! Relembrar com alegria sim!

Dia desses eu li uma frase de um escritor em que ele dizia que estava escrevendo pouco por estar feliz e gente feliz não escreve muito, se expressa mais por imagens pois elas dizem mais que palavras…
Pode ser que sim… Talvez eu também esteja escrevendo menos e postando mais fotos em uma rede social… Mas não vim aqui agora escrever por estar triste… Eu venho aqui escrever porque me deu saudade e a saudade me inspira.

A lembrança é passageira, assim como a vida… Mas a lembrança vai e vem como os passageiros de um trem pra qualquer destino… Mas a vida não… A vida é uma só… Ela não vai e vem… Ela só vai, o que vem são as coisas novas, as pessoas novas, como os passageiros que chegam pra conhecer a nova estação…

As lembranças são as viagens… Que acontecem, mas que não duram para sempre, pois haverá sempre novas estações a serem visitadas nessa vida…

Então eu fui…
Fui lá conhecer…

Até a próxima estação da saudade… Te vejo por lá!

Um caminho

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Não é fácil acordar todos os dias e buscar forças para encarar a vida de cabeça erguida. Lutar para combater as incertezas e muitas vezes para buscar as certezas.

Ser forte é mais que uma qualidade, é uma necessidade, principalmente quando não se tem outra opção. É ir e vencer ou nada.

Os caminhos são difíceis, as pedras são grandes, doloridas, pesadas, machucam, causam dor, fazem chorar, perder o sono… Mas a estrada continua e é certo que não se deve parar.

Fazemos escolhas, sofremos suas consequências, deixamos de fazer escolhas e também vivemos as consequências.

Omitimo-nos, nos acovardamos, deixamos pra depois, calamos muitas vezes nos momentos errados. Enfim… Somos humanos…

De tudo ficam as lições, o aprendizado, a experiência e as histórias que passamos a frente. Das quedas, oportunidades de reerguer-se e novamente tentar.

Pessoas não são blindáveis, não nascem prontas e também não vivem para sempre. Pessoas precisam se condicionar, adquirir, deixar passar, desobedecer. Precisam acalentar, transgredir, buscar, sentir..

Gente de verdade sente dor, adoece, se engana, se irrita, sente tristeza. Gente de verdade derrama lágrimas.

Pessoas precisam aprender a construir, mas também a destruir e recomeçar. Elas precisam viver e a vida implica em escolher caminhos.

Tributo ao sorriso

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Estou descobrindo que aprendi a dizer adeus com um sorriso, ainda que com um pouco de pesar, mas não com sofrimento. Aprendo sempre mais que tudo e todos uma hora se vão e que assim foi e sempre será.

A vida é construção e cada um que se aproxima é responsável por algo que me edifica. Algumas pessoas sempre serão nossa base maciça, mas todas elas, sem exceção, todas são responsáveis pelo meu crescimento e com nenhuma delas eu vou ter uma experiência ruim, simplesmente com algumas delas eu terei um aprendizado mais marcante.

Todos os remédios do mundo precisam da mesma coisa para fazer efeito, a composição da fórmula tem sempre o mesmo ingrediente, o tempo. Seja ele curto ou longo, mas sempre o tempo vai resolver. Resolver a dor, o amor, a saudade, a distância, a raiva, a falta de compreensão… Só o tempo! Ele vai transformar as coisas e as pessoas e vai fazer elas entenderem em algum momento o que eu entendo agora.

Só o tempo… Pra me fazer entender que pra algumas coisas não podemos perdê-lo. Não poupar elogios, dizer sempre eu te amo, distribuir abraços, sorrir e fundamentalmente PERDOAR.

Nossos cronômetros desajustados que não funcionam em um compasso só, a medida que uns caminham para frente, outros precisam dar passos para trás.

Pra alguns diremos “- Não se vá agora pois ainda é cedo”, ao passo que para outros agora já era tarde demais. Mas o tempo leva, cada qual no seu momento.

Sou feliz por saber o que realmente é essencial e que grande parte dessas coisas não ocupam se quer espaço em nenhum lugar que não seja o meu próprio coração.

Não é necessário fazer as malas, viver já é carregar uma grande bagagem.

( Com carinho, a memória de vovô Cid e Fred, seus sorrisos me ensinaram muito sem dizer absolutamente nada)

Eu gosto tanto…

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Gosto de lembrar que eu gosto de gente!

De gente que soube me proporcionar momentos felizes!
Gente que dividiu comigo muitos sorrisos e fins de tarde divertidos.
Horas de cinema, bons papos, passeios, caminhadas…
Gente que comigo assistiu o sol se pondo deitada na grama…
Ver a noite chegando e ver as luzes da cidade que mudavam junto com a sua cor e o seu som. Gente que viu comigo o barulho virar silêncio e o som das nossas risadas crescendo.

Eu gosto de gente que vem a memória através de uma música!
Gente que conta histórias e que também gosta de ouvir as minhas, gente que questiona, que intriga, que responde.
Gosto de gente que diz que nunca fez amigos bebendo leite…
Gente que me deu apelidos…

Eu gosto muito de gente que deixa saudade, gente que eu não vejo mais, mais gente que eu me lembro sorrindo!

Como eu gosto… Gosto tanto… E faz bem só de lembrar.