Quando você foi

Fiquei parada de frente pro nada dessa sala, olhei para o teto, para as paredes, e para a janela de frente para a rua. Essas parede nuas guardaram tantas histórias, tantas coisas nossas, tanto riso, choro, barulho, conversas… Já vivemos tantas coisas aqui.

Todos os quadros das capas dos discos do Pink Floyd, fotos dos Beatles e os bonecos do Star Wars. O abajur que podia ter qualquer cor, mas que na maior parte do tempo tinha uma cor só.

Lembro de quando chegou o sofá novo e você cheio de cuidados para eu não fazer nenhuma besteira. Lembro do jogo que você me mostrou, aquele de atirar bolinhas pretas na tela toda branca, eu não faço ideia do nome, mas eu me lembro. E de quando comprei utensílios pra sua cozinha no dia das crianças, o meu primeiro episódio de Breaking Bad, o documentário sobre o acelerador de partículas, com você cochilando, e até o dia que eu fiz sopa de lentilhas pra uma semana. 

Eu já cheguei de dia, de tarde, de madrugada, já saí cedo, já te acordei pra fechar a porta que não se fechava sozinha e já fomos de metrô. Já passamos final de semana vendo TV, enrolados num cobertor e já aproveitamos um dia ensolarado de verão na praia.

Eu tenho tantas recordações suas, coisas que você nem se lembra mais. Você estudou teatro, produção musical, encarou rotina de ponte aérea, perdeu uma, duas, três ou quatro carteiras e dois passaportes, e eu liguei pro posto de gasolina pedindo informações. A tulipa que você trouxe da Holanda, brotou, mas depois secou, eu nunca soube como ela sobreviveu tanto naquela lata. Todos os hiatos, todos os fins de hiatos. Todas as frases que viraram bordões e Todas as músicas que já ouvimos juntos, e que por dias foram meu mantra para me encontrar em algum lugar onde eu estivesse sintonizada a você.

Todos os objetos esquecidos e devolvidos, os desaparecidos e os sequestrados. Todas as nossas conversas, os áudios, as conferências e toques na porta.

 O dia que eu fiquei perto do parapeito da janela e você me contou sobre uma menina da sua infância. O dia que você passava vendo TV com seus pais. As lindas histórias de vida da sua avó.

Você foi assunto pra muitas conversas, pretexto pra muito choro, razão de muita dúvida, lembrança de muito sorriso e conteúdo pra muito texto que eu criei e recriei. Você sempre foi inspiração. Quem foi tanto, nunca vai deixar de ser alguma coisa.

Do lado de fora da porta dessa sala, eu não sei como será a vida, não sei o que pode acontecer, não há garantias, nem certezas, mas eu tenho meus palpites, minhas aspirações, meus pedidos. 

Peço que o mundo seja gentil, que a saudade não castigue tanto, que as lembranças causem sorrisos. Que o vazio que o espelho reflete seja só o do imóvel, jamais o de nossa vida.

 Que você continue a habitar minha história, meus pensamentos e pra sempre, meu coração.

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5 anos e 2 malas

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8 de agosto, data de mais um rito de passagem na minha vida. Lembro-me bem, que 5 anos atrás, eu resumi minha vida em duas malinhas, peguei um táxi e fui pro aeroporto sozinha. Não teve abraço, não teve olhar pra trás… Eu me lembro de sentar na poltrona do avião e chorar como uma maluca, sem ter certeza de absolutamente nada que aconteceria dali pra frente, mas mesmo assim eu não desisti.

Por muito tempo eu chorei e choro até hoje. Durante esses últimos 5 anos, as minhas duas malinhas já não são mais suficientes pra carregar toda a minha bagagem. Sou grata por tudo o que passei pra chegar até aqui. Eu sei que é apenas o início de um caminho, mas nada teria acontecido sem o primeiro e dolorido passo. Muita gente, querendo me proteger, sugeriu que eu desistisse, mas eu aprendi que sou mais forte do que eu pensei que poderia ser. Nem sempre a coragem é de lutar, mas a resistência pra tomar umas porradas é grande.

Eu sou grata pelos amigos que eu conheci até aqui, pelos próximos e pelos passageiros. Cada pessoa que passou pela minha vida é responsável pelo que eu sou. Eu sou grata pelas palavras, pelos abraços, pelos sorrisos, pelas derrotas, pelo sofrimento, pelo medo, sou grata por todas as dificuldades que tive e ainda tenho, porque eu sei que elas maturam o sabor das minhas alegrais, das vitórias que chegam de mansinho, mas eu não deixo de saborear nada.

Que meus próximos 5 ou 50 anos, continuem sendo sempre de muito aprendizado, de otimismo, de sorrisos, mesmo que em meio à lágrimas, pois foi assim que eu aprendi a ser. Ser forte, ser sorridente, ser grata, independente da conduta dos outros, eu vou sempre acreditar na beleza que há nas pessoas, na bondade que pode existir no mundo, acreditar que o amor é capaz de ultrapassar barreiras inimagináveis. Gratidão!

#Obrigada – Jaqueline

O que define uma família?

Quais parâmetros podem medir se alguém é de fato parte tão importante da minha vida?
Genética? Desenho de árvore genealógica? Um exame?
Jaqueline, a Jaque. Fala baixinho, ri alto e abraça forte.
Eu ainda vou contar a história de muitos anjos, mas começo por ela, que sempre me emociona.
Eu não sei se eu enviei um convite, mas sei que ela aceitou fazer parte da minha. Muitas vezes ela não está lá, mas divide comigo e me faz ter fé na vida de novo.
Me faz sentir família, com abraço de mãe, colo de amiga e gargalhada de cúmplice. E eu nunca entendo quando ela tenta me dizer obrigada por algo, pois eu não conseguiria jamais retribuir a tanto. Poderia narrar muitas coisas, mas um dia ao contar de um problema meu para Jaque, ela me olhou nos olhos chorando e me perguntando Porquê? Porquê tanto sofrimento?
E eu chorei, não pelo que eu vivia, mas porque naquele momento ela fez eu sentir que não merecia sofrer, mas que eu merecia ter pessoas na minha vida como ela e quando alguém no mundo aceita dividir com você aquilo que é seu, o seu peso se torna mais leve e mesmo a sua felicidade se torna mais plena.
É não estar sozinho.
Escolha!
É isso que define família. É escolher dividir. Dividir é levar e é trazer. É receber e também oferecer. Partilha.
Jaque, obrigada pela sua escolha, não só comigo, mas pelas escolhas que você faz da sua vida e pelo que elas fazem com você.
Você me faz acreditar em muitas coisas boas.
Você me diz que eu sou jovem, é que eu vivo esquecendo, mas me lembro quando te vejo.
Você me faz ver que quem está certo não precisa falar mais alto e nem por último.
Você me faz ver que nem sempre que gestou um filho é que a mãe.
Me faz entender respeito. Quanto mais se dá mais se tem.
Valor de uma amizade é ter uma amizade que não tem preço.
Muito obrigada Jaque. Obrigada pelo que você é e pelas outras 4 pessoas maravilhosas que você trouxe pra minha vida!
Amo vocês!

A caverna

 

Eu que me escarneço ao pensar que muita gente nunca para pra pensar
E eu que não paro de pensar em como a ignorância consome o mundo irracional
Eu que olho para um mar de gente e vejo uma massa modelada e com o pensamento de animal
Eu que odeio ter que engolir a seco essa essa maneira de na brincadeira tudo encarar

Eu que tenho nojo
Eu que tenho asco
Eu que não suporto

Eu que como poucos, muito poucos, sofro
Sofro por simplesmente pensar
Pensar é verbo que exprime a ação
Ação é definir a atitude
Atitude de querer fazer diferente

Diferente de tudo que é padrão
Padrão que é aceito e é errado
Errado pois é movido a interesse
Interesse que é de poucos

Poucos que dominam muitos
Muitos que se deixam dominar
Dominar e oprimir
Oprimir e fazer aceitar

Aceitar que é assim e não vai mudar nunca
Nunca é muito tempo
Tempo que não quero perder.

Eu tenho ânsia
De vômito e de mudança
E eu ainda vou vomitar muita coisa
Até ver as coisas começarem a ser diferentes

Então pare
E comece a pensar
Pois o pensamento é o primeiro movimento.
Da ponta dos dedos aos mais profundo sentimento.
Pense! RE-pense, abra os olhos e saia da caverna!

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Um conto que te conto

Ela acordou no meio da noite, mas ainda tinha sono e sentiu frio e vazio.
Ouvia do lado de fora o som que fazia o vento e entendeu que logo a tempestade chegaria.
Esperou e inspirou como quem se prepara para atirar-se ao precipício,
como que pensa no que não tem a perder,
como quem não tem vontade de olhar para trás.

Ela caminhou até a sala, pegou um cigarro na bolsa, acendeu, sentou e contemplou a sombra que a luz do lado de fora da janela fazia no chão enquanto fumava.

Não lhe restava muito a fazer a não ser pensar e esperar que o dia amanhecesse. Compartilhava suas ideias com o barulho de tic-tac do velho relógio e com a marcação de tempo que suas unhas faziam sobre a mesa do telefone.
E enquanto marcava o tempo, o tempo deixava nela marcas.
Quando viu o sol raiar, botou o rosto a mostra, ainda com suas olheiras enormes e seu gosto de café amargo na boca, ela olhava as faces, ainda sonolentas e enxergava que no meio de tanta distração era possível passar despercebida.

Ela se misturou a tantos outros apáticos zumbis que cumprem sua missão rotineira de não serem nada mais além do que personagens secundários das suas mórbidas vidas. E ela seguiu o fluxo, perdendo a oportunidade de se transformar na mensageira e transformou-se apenas em mais um captadora da mensagem e para isso a única coisa a fazer é não fazer nada.

Fazer nada é mais fácil e ela preferiu o que era fácil!

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