Efeito Colateral 

Quando eu me prescrevi você, esqueci de dizer a mim mesma sobre os seus efeitos colaterais.

Eu não me contei que você causava arrepios, suor, delírios e dependência.

Eu esqueci de dizer que você poderia se tornar um vício.

E abstinência causa água na boca e visões quase reais.

Eu me contei que você era remédio, mas omiti que o abuso te transforma em meu veneno e eu abusei. Ah! Como eu abusei!

E agora é certo que vivo num mundo paralelo onde te procuro em bocas e becos.

Mas não se encontra fácil a versão mais pura desse sabor intenso.

E então… Água na boca…

E aí te encontro… Arrepios, suspiros, suor e vários delírios e antes que eu perceba… Já me encontram completamente alucinada e quando me dou conta, já não quero mais nada. E eu volto, não me trato.

E eu me vendo, sem me ver.

Eu me vendo sem te ver.

Eu me vendo te procurando.

Eu me vendo, te compro!

Eu – Meu

 

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À base d’ água

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Pintura Aquarela: Ricardo Marinho

Eu tenho medo de mim
Nesses dias em que faço as coisas
Sem pensar no que pensa você

Nesses dias em que eu não tenho controle
Que pareço ser o que eu sou
e não o que você sabe de mim
Nesses dias que talvez me descubram

Eu tenho medo de mim quando eu saio da linha
E ando assim tão tortinha
Assistindo seus ridículos sustos

Eu sou esse desalinho
Submerso na minha e na sua hipocrisia de sustentar essa pose
Essa máscara
Esse personagem.

Não queira me canonizar
Não!
Não quero perder o medo de ter esses meus dias

De jogar água nessa tinta que cobre uma pintura que eu não fiz
Que eu não quis

Olhe bem
Pra ver pouco a pouco desfazer
Essa tinta a base d’água que ficou embaixo da chuva
E dissolve, desfaz, derrete…

Porque não há no mundo
farsa e hipocrisia que dure pra sempre.

109 anos ou mais

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Tive a honra de nascer dotada desse espírito
Que comunga das alegrias e das tristezas do mundo
E se emociona com a energia que vem das pessoas
E encontra em tudo e todos o lado bom.

Eu tive a sorte de enxergar sorriso no meio da noite
E de brindar com a beleza que emana da vida.

Eu aprendi a dançar na chuva
E a cantar pra Lua
Eu aprendi a falar com as ruas
Que andam por mim como ando por elas.

Eu vejo as cores
Em cada dia e vejo ainda mais dias dentro de um só.
Não me aceito dentro dos meus 24 anos
Sendo em mim mais do que eu sou.

Eu tenho em mim
109 anos de histórias que não são minhas
Eu tive a sorte de sorrir até aqui
E esse anos não me pesam os ombros, mas me elevam os pés.

Flutuo entre universos que não pertenço
Mas como boa penetra, me sento à mesa, provo um drink e faço amigos
E se a vida for uma contagem regressiva
Eu tô pulando sobre os ponteiros.

Eu gasto o tempo que me gasta
E ainda não tem fim,
Nem meu tempo e nem esse texto
Porque são 109 anos ou mais que estão começando todos os dias.

Alice, Freud e José

Ela era apenas ela.
E o mundo novo se abriu sob seus pés.
Alice teve de crescer e ser pequena.
A situação pediu que fosse gente grande ou que soubesse lhe dar com sua pequinês em tamanho mundo.

Freud explique essa minha necessidade de falar sobre esse conflito de viver num limbo onde não se é grande o suficiente e nem tão pequeno assim.

Há um meio do caminho onde você ainda não pode caminhar só, mas não pode mais contar com a ajuda de alguém.

É esse ciclo astral ainda não completo antes dos 28 anos de idade. É esse mundo com um paradoxo temporal. Uma ampulheta que vira e desvira. Com e sem tempo. Muito e pouco. Suficiente e não o bastante.

José diz que ela é legal. Sabe conduzir as coisas e ainda lhe dá bom dia, mas José não sabe quem é Freud e nem deve ter ouvido falar de Alice. Ele abre os portões dos caminhos que eu faço e me saúda entre gorjetas e correspondências
É conveniente!

Alice cresceu… encolheu…
Brigou, com medo, mas enfrentou.
Esperavam que Alice conseguisse. E ela conseguiu. Foi por ela ou pelos outros?
Freud? O que me diz?

Um gato que sorri e desaparece também me deixa louca. Num mundo onde se caminha pelo desconhecido mesmo quando se sabe onde deve chegar.

O fim…
Que não justifica, mas transforma os meios.
Os meios que levam ao fim. Ou aos fins? Ou aos afins?
Quantas possibilidades eu tenho?
História escrita ou folha em branco?

José diria que tudo é o que é.
Freud acha que sou um animal dotado de razões imperfeitas e esses desejos que levam e trazem.
Alice não acha, não sabe, não entende… Vai…

E agora?
De Alice, Freud e José.

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O sorriso de Constança

Faltava dez minutos para as 7 horas da manhã, quando o celular tocou me fazendo pensar se eu estava acordada mesmo ou se ainda sonhava. Era Eduardo que respondia a mensagem enviada dois dias atrás.

Acordei, as 9h já deveria estar em Ipanema. Cansada, após chegar tarde do trabalho na noite anterior, andava pela casa quase me arrastando, tomei um banho, escovei os dentes, peguei a mochila e saí.

Entrei no metrô vazio, escolhi uma cadeira e me sentei. Numa outra estação o metrô ficou cheio e eu avisto uma senhora de pé. A cutuquei e ofereci lugar, ela sentou-se, satisfeita com o meu gesto ofereceu-se para levar minha mochila.
Eu ri e falei que estava muito pesada, ela mesmo assim insistiu. Eu cedi, mesmo ficando com pena dela, pois realmente pesava muito a mochila. Em outra estação o metrô fica vazio novamente deixando vaga a cadeira ao lado da senhora que carregava a mochila.

Se tratava de Constança, ou Maria Constança, uma mineira de Belo Horizonte, que nunca se casou ou teve filhos, que vive no Rio de Janeiro e agora depois dos 80 quer aproveitar a vida depois de ter criado os irmãos, sobrinhos e os pais.
Ela que viajou duas vezes à Brasília para visitar a irmã, dizia que amou conhecer uma cidade planejada, organizada e lamentava por ter esquecido os livros de história que a irmã lhe dera, contando sobre todo o plano da nova capital e sobre todos que ajudaram a construí-la.
Ela que também não sabia em qual parte da Rua São Clemente encontraria o ônibus que a levaria ao Humaitá, onde deixaria um presente para a filha de uma amiga de BH, trazido em sua última viagem.

Entre uma história e outra ela me sorriu dizendo que se sentia feliz por viver e poder ver tantos rostos jovens e bonitos e poder sentir uma energia boa que as pessoas possuíam. As nossas mãos se tocaram em gesto de agradecimento, já chegava a estação de Botafogo onde ela desceria.
Constança levantou-se, se colocou ao meu lado, sorrindo, repetiu meu nome (Leila) vou me lembrar de você nas minhas orações.

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Eu sorri, agradeci e dentro de mim falei: Constança, vou lembrar-me de seu sorriso de menina.

Fermentando

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Não nasci pra viver as coisas tão mais comuns
Pra ter uma vida pacata e normal
Ainda que eu não escolha, sou mais uma icógnita do que a inércia

A necessidade de estabilidade não sobrevive perto da minha curiosidade pelo novo
A certeza única é a de que nada é tão certo assim
As coisas mais duráveis acabam em minutos

As coisas que se prolongam demais acabam esquecidas pela monotonia em que elas mesmas se afogam
O apego é uma bomba relógio para saúde de quem vive
A vida é trânsito, fluxo, trocas
Idas, vindas, passagens, rumos que mudam sem parar

A coisa mais sensata a se fazer na vida é viver
E deixar que o tempo continue a agir da sua maneira e dar a cada um seu sabor

Passam

O que fica do que vai?

Os móveis, as roupas, as fotos.
Os traços, alguns recortes velhos guardados e espaço cheio de completo vazio.

Fica tanto que chega parecer que nem deixou de ser. Parece que ainda está aqui. O que fica quando a gente não quer deixar ir embora.

Mas que senhor é o tempo, que leva instante a instante cada gota de tal tormento. O tempo parece vento que faz folha seca voar, subir e sumir até que longe ninguém mais possa enxergar.

Aí esvazia e enche de novo, trás o novo, tira o cheiro de mofo e vem ar de primavera com flores novas e fim de tarde ao som do mar. Até em quem já ficou bem velho, tem sorriso de moço.

O que fica realmente fica, mas não fica do jeito que já era.
Faz-se de todo dia um novo guia, pra seguir caminhos por onde nunca se foi.
É a caminho do novo que você percebe que um passo errado as vezes leva ao rumo certo e que o plano inicial não leva a um destino final.

O que fica, fica… Mas fica dentro da gente. A gente vai pra todo lugar, como as folhas que o vento levou. E no fim de tudo, a gente vai…

O que fica do que vai é a certeza de que o que ficou uma hora também vai.
Somos passageiros!

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Um caminho

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Não é fácil acordar todos os dias e buscar forças para encarar a vida de cabeça erguida. Lutar para combater as incertezas e muitas vezes para buscar as certezas.

Ser forte é mais que uma qualidade, é uma necessidade, principalmente quando não se tem outra opção. É ir e vencer ou nada.

Os caminhos são difíceis, as pedras são grandes, doloridas, pesadas, machucam, causam dor, fazem chorar, perder o sono… Mas a estrada continua e é certo que não se deve parar.

Fazemos escolhas, sofremos suas consequências, deixamos de fazer escolhas e também vivemos as consequências.

Omitimo-nos, nos acovardamos, deixamos pra depois, calamos muitas vezes nos momentos errados. Enfim… Somos humanos…

De tudo ficam as lições, o aprendizado, a experiência e as histórias que passamos a frente. Das quedas, oportunidades de reerguer-se e novamente tentar.

Pessoas não são blindáveis, não nascem prontas e também não vivem para sempre. Pessoas precisam se condicionar, adquirir, deixar passar, desobedecer. Precisam acalentar, transgredir, buscar, sentir..

Gente de verdade sente dor, adoece, se engana, se irrita, sente tristeza. Gente de verdade derrama lágrimas.

Pessoas precisam aprender a construir, mas também a destruir e recomeçar. Elas precisam viver e a vida implica em escolher caminhos.