Antes das 11h da manhã

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Ainda faltava um tanto para às 11h da manhã
Eu tinha horário marcado às 11h
Sentei na padaria para tomar um café
Fui fazer hora
Da hora que ainda não estava feita
Porque faltava ainda para às 11h.

Na única mesa disponível
Eu me sentei de frente para a rua
Logo na frente do semáforo
Onde param os carros ai sinal vermelho.

Enquanto bebo os goles desse café morno
Observo os vidros abertos e fechados
Mais fechados que abertos
É julho, e no Rio, 21ºC
Está frio, pelo menos para nós.

Vi o senhor de cabelo branco
Que conversava com a senhora do banco do carona
Eu não sei o que diziam, mas sorriam.

Vi o taxista careca e de óculos
Que com os olhos distantes encarava a tintura do carro ao lado
Não sei o que o tinha o reflexo, mas ele refletia.

Do outro lado da rua, a moça do cross fit levanta um ferro pesado
Duas esticadas do braço e sentiu a lombar
Até eu senti
O peso parecia mais pesado que ela.

No vidro fechado do ônibus, o rapaz de casaco vermelho se encosta
No banco de trás o moço de fones de ouvido observa o celular
Não sorri, nem reflete
Só assiste com a cabeça inclinada para baixo.

Na calçada do lado de cá, um moço empurra um carrinho
Parece de bebê, mas era um cachorro
Eu sempre vou sorrir com a mordomia dos bichinhos
Vida de cão, num dia frio antes das 11h da manhã.

Quando o sinal abre, o trânsito flui e todo mundo passa
Não dá tempo de observar
O carro da frente acelera e puxa o outro
Que puxa o outro e o seguinte.

Eu contabilizei, são 50 segundos de sinal fechado
50 segundos de sinal aberto
Estou sentada aqui há um pouco mais de 20 minutos.

Mais de 1000 segundos de vida entre um sinal e outro para observar e viver
Outros 1000 segundos onde tudo sexo o fluxo
Às vezes  quem veio depois corre, ultrapassa o sinal.

Agora chove frio
O café no fundo do copo já está gelado
Falta menos do que faltava para às 11h.

Fiz minha hora em uns 20 e poucos minutos
Vou pegar os sinais do meu caminho
Para parar e seguir
E seguir lembrando de parar.

Parar para ver a vida acontecer
Sendo extraordinariamente ordinal
Ritmada pelos intervalos dos sinais verdes e vermelhos.

Entre os sorrisos com o carona
Os pesos mais pesados que nós mesmos
O cansaço pra encostar ou para assistir
Os reflexos que nos fazem refletir
Ou no aconchego de um mimo.

A vida acontece enquanto eu faço hora.

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