Fotografia

dsc_0103Eu capturei você em um retrato. Peguei pra mim e eternizei uma lembrança sua que talvez nem te pertença, mas que será, de agora em diante, pra sempre minha.

Eu tomei para mim uma você que nunca foi e nunca será real. Eu vou guardar uma representação sua, que ainda sendo sua, é muito minha.

Você, para mim, é a alma daquela foto. Está lá, plena, serena, tão poesia, toda beleza, toda sutileza. Você natura.

Eu vou guardar de você uma possível mentira, que pra mim é toda a verdade. É você do jeito que eu te quis, que eu te quero, do jeito que eu te fiz, que eu te vi. É você na minha construção.

É você, que é um pedaço de mim. Seguro e simples, como um pedaço de papel na palma das minhas mãos.

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Da janela pra cá

Leila Fotos (197)
Fica aqui mais um pouco. Só mais um pouco.
Uns 5 minutos, dez anos ou o resto da vida, mas fica.
É que eu achei no seu abraço a paz que eu queria sentir no resto do mundo.
Eu descobri que todas as coisas são descartáveis.
Elas são coisas.
Mas com você eu tenho mais. Você me faz sentir.
E emoções não são coisas, não quero jogá-las de qualquer maneira no mundo.
Sinta comigo.
Me abraça só mais um pouco e fica.
Me deixa ver seus olhos adormecendo enquanto o seu sorriso se desfaz e se transforma na sua cara de paz.
Sim! Você tem uma cara de paz.
Essa que fica estampada aí, quando eu ainda não consigo entender se seus olhos estão abertos ou fechados.
E na minha dúvida, mora seu silêncio. Ou no seu silêncio mora a minha dúvida. E eu duvido me encantando.
Deixa a vida continuar seguindo do lado de fora da janela, mas hoje, fica! Continuar lendo

Último ato

                                                            IMG_6509
– Oi
– Olá
– Gostaria de conversar com você
– Está conversando!
– Da última vez que nos falamos você não foi muito amistosa
– Pois fale
– Eu soube do seu avô
– É, ele descansou… É a vida!
– Soube também do seu novo trabalho.
– Ah, sim, por enquanto é legal
– Você nunca é feliz por muito tempo em um mesmo lugar. Qual o seu problema?

– Eu não me conformo. Acho que a vida é muito curta para que as coisas sejam sempre da mesma maneira, só isso.
– Eu vejo isso nos seus olhos. Vi desde a primeira vez que te encontrei. Eu queria você, mas eu nunca aprendi a voar. Eu sabia que alguma hora as suas asas iriam se curar e você ia partir novamente.

– As feridas não doem para sempre. De alguma quedas eu vou levar só as cicatrizes, de outras eu levo uma vontade ainda maior de voar e voar mais lato, mais longe!

– Hoje eu vi o sol nascendo, eu me lembrei de você. Você sempre disse que ama ver o sol chegando ou partindo
– É verdade, eu amo mesmo – Você e o sol se parecem muito
– É?
– Os dois vão e vem, mesmo eu não vendo eu sei que estão em algum lugar e vocês tem luz.

– Obrigada, eu acho. É bom ouvir isso de você.

– Você poderia me ouvir mais, mas você me evita.
– Eu não sei te explicar, mas eu sou estranha. Eu prefiro me afastar às vezes.
– Você tem medo!
– Medo? De você? Que piada…

– Não! Você tem medo que alguém te faça feliz, tem medo de sofrer.

– Eu sou feliz!
– Mas não é por completo. Você é esse dilema que quer voar pra sempre, que gosta de liberdade, mas que se sente sozinha e quem tem medo que um outro alguém te prenda ao chão.

– Você não sabe o que está dizendo
– Eu sei sim! E eu adoro esse seu jeito, inclusive essa sua cara de irritada aí.
– Então é por isso que você me atormenta?
– Não! Eu apenas gosto de você, mas quero que você saiba que as outras pessoas não são como eu que não sei voar.
– Você está sendo o que sempre foi, um velho e chato. Você não devia ter vindo aqui.

– Eu sempre ando por aqui, tentando te ver.
– Então quer dizer que além de velho e chato você também é uma maluco psicopata que me persegue pela vizinhança?
– Talvez… Talvez você deva mesmo temer e como essa pode ser a última vez que você me recebe, eu precisava te contar tudo o que eu penso e sinto.

– Já terminou?
– Não seja assim, vai… Você costumava ser bem humorada. Tá de TPM?
– Caramba!!! Isso é uma visita ou uma consulta? Você agora é analista? Vai ficar dizendo o que eu sou, o que devo fazer. Você é meu pai?
– Não. Nada disso. Você sabe que eu quase poderia ser seu pai.

– Você não é tão velho assim! – Mas não sou mais um garoto. E você é jovem, linda, inteligente…
– Me desculpe, mas agora você tem que ir, tenho muitas coisas pra fazer.
– Você sempre tem mil coisas pra fazer
– Sim, sempre!
– Eu queria ser alguma coisa pra você.
– Esse seu jeito me sufoca. Eu não suporto isso, tem um limite entre querer ser desejada e um não querer. EU NÃO TE QUERO MAIS. É isso!
– Tudo bem, eu acredito, mas olha…
– Que foi?
– Eu vou sempre te querer bem
– Eu nunca disse que não te quero bem.
– Que bom! Pense nas coisas que te falei. Você merece ser feliz.

– Só eu sei os caminhos que me trouxeram até onde estou hoje. Eu sei o que eu vivi para ser quem eu sou e para agir dessa forma  e eu já te disse… EU SOU FELIZ.

– Que bom então. Bem… Foi bom ver você. Posso te pedir só mais uma coisa?

– O que mais você quer?
– Um abraço – Você sabe o que eu penso sobre abraços…

– Sim, eu sei. Por isso estou te pedindo um. O último, prometo.

(Abraçaram-se)
(Minutos em silêncio)

E a porta se fechou… Com lágrimas nos olhos dos dois lados.

Identidade

Cada gota d’água que se desfaz é importante. Nenhum acontecimento natural ou não pode ser ignorado. Na constituição do ser, cada pequena partícula é crucial.
Todo momento que vivemos é responsável pela construção da nossa identidade e alteridade. Não fossem as experiências empíricas, filosóficas, teóricas, hereditárias, nós não seríamos nós, eu não seria eu, e é impossível que as experiências sejam as mesmas. Ainda que irmãos gêmeos cresçam na mesma casa, nunca serão capazes de enxergar o mundo pelo mesmo ângulo, cada um assistiu a mesma coisa pelo próprios olhos. Quando pensamos profundamente em nós, estamos sós, pois por mais que haja pessoas com pensamentos semelhantes aos seus, ninguém é completamente igual, a começar pelo próprio corpo.

Tivesse eu acordado mais cedo na manhã do dia 24 e me lembrado de pegar o guarda-chuva antes de sair, não teria me molhado e ficado gripada. No mesmo dia, Mariana descia as escadas apressadamente, tropeçou e torceu o pé, enquanto Júlio dirigia a 40 km/h, parou na faixa de pedestres para uma turma de estudantes…

Os atos às vezes parecem repetidos, mas os pensamentos são mais rápidos e muitas vezes indecifráveis. Certa vez, assistindo um programa na TV, vi uma reportagem com a Íngrid Betancourt, que foi sequestrada e viveu seis anos na floresta com os guerrilheiros das FARC, na reportagem ela falava sobre como viveu os anos de cativeiro e disse uma frase que nunca esqueci “Nem a pior das ditaduras é capaz de calar o pensamento”. Sempre que penso nessa frase, fico tentando imaginar a experiência de Íngrid. Nunca saberei o que realmente ela viveu, ainda que eu revivesse cada minuto da história dela, eu nunca estaria em seu pensamento.

Una, essa é a definição de cada identidade. Como se costuma dizer por aí “eu não estava na pele” de ninguém, nem na pele e nem na cabeça. Antes de fazer qualquer juízo de valor, deve-se pensar um pouco sobre isso, apesar de nunca estar vendo o mundo pelos olhos das outras pessoas, eu não saberia quem sou se não tivesse o outro para. O meu eu – individual só pode existir com o contato do outro.

Antes de criar rótulos para qualquer coisa, devo me lembrar que o rótulo é uma criação minha e não o que as coisas realmente são. Se eu uso um óculos azul, vou enxergar o mundo azul, mas isso não quer dizer que ele é dessa cor. Por mais que não se viva no corpo e na mente de outro alguém, permita-se observar um pouco mais. Lembre-se ainda que você por mais que seja uma essência, também sempre será visto como e pela aparência. Procure ser coeso entre ambos. O que o mundo enxerga são seus atos, não suas filosofias.

Eu quero

Eu tenho surtos criativos e surtos de falta de criatividade. Eu não entendo bem quando eles vem e quando vão e nem como acontecem. Pode ser o excesso ou a falta de algo, não sei!

Um tempo atrás eu me preocupava em ter coerência entre todas as coisas que eu escrevia, mas deixei de lado essa necessidade. Para que ter a mesma opinião sobre todas as coisas ontem e hoje, se amanhã eu não serei mais a mesma? Como quis dizer Descartes: “-Penso, logo mudo de ideia”

Que mudem as idéias, mas que elas continuem sempre existindo, que elas jamais me abandonem. Que ter diferentes motivações para escrever não seja o problema, mas que eu não deixe de maneira alguma de me incomodar.
Acomodação não é bom sinal. Quem se acomoda passa a ser espectador e passa a aceitar que a vida é assim por isso ou aquilo e que não pode e não vai mudar.
Eu acredito que a mudança começa em mim e que as atitudes em cadeia são capazes de sacudir o mundo.

Eu quero escrever e quero acreditar. Acreditar em mim, nas pessoas e no mundo, acreditar na força das minhas palavras. Quero seguir a diante, olhar para frente.

Quero fazer estórias e escrever a minha história.