26 de fevereiro de 2019

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No dia 26 de fevereiro de 2002 ao meio dia a minha casa estava cheia, eram os vizinhos que corriam de um lado para o outro tentando ajudar. No chão da sala estava o meu pai, que tentavam levar para o hospital.

Era pra ter sido uma terça-feira de sol como outra qualquer, minha mãe tinha saído de casa cedo, meu pai tinha saído ainda mais cedo, mas voltou pra casa e tinha passado a manhã deitado em seu quarto.

Pouco antes do almoço, me lembro de entrar no quarto pra falar com ele e reparar que algo estranho estava acontecendo, ele nervoso, pediu que eu saísse. Alguns minutos depois eu escutei a voz dele gritando, quando cheguei no quarto ele me pedia pra chamar ajuda, tentei ligar para os bombeiros, não consegui, corri pro lado de fora, abri o portão, chamei pelos vizinhos, eu repetia aos berros “meu pai está morrendo, me ajuda”…

Todos tentaram ajudar… Mas meu pai morreu.

A Leila que tentou socorrer o pai, tinha 11 anos de idade. A Leila que não conseguiu salvar o próprio pai, tinha 11 anos de idade.

Carreguei isso nos últimos 17 anos da minha vida. Um mês atrás, durante uma sessão da minha terapia eu me peguei gritando falando sobre esse assunto e entendi que apesar de dor, da tristeza e de tantos outros sentimentos que tenho sobre aquele dia, eu sentia raiva…

Raiva pelo que o meu pai fez, por ele ter nos deixado, por ele ter feito eu passar por aquilo como se não se preocupasse por eu ter apenas 11 anos de idade, raiva por como a nossa vida ficou, por como as pessoas nos olhavam, pelos comentários que tive que ouvir, pelos dias dos pais que não tinha pai na escola, pelos presentes que éramos obrigados a fazer.

Eu senti raiva! E nunca tinham me deixado sentir essa raiva antes. Todos me consolavam, pediam aceitação e eu sempre aceitei, mas nesse dia eu senti raiva e eu tinha o direito de sentir, a minha criança machucada precisava sentir e foi libertador.

Nenhum dos sentimentos muda o que aconteceu, nada será capaz de trazer o meu pai de volta, mas entender como eu me sinto diante do que aconteceu, me faz conseguir viver melhor comigo mesma agora e foi preciso me permitir sentir e não só o perdão, a aceitação e a superação, mas a raiva também.

Todo ano eu escrevo no dia 26 de fevereiro, hoje não é diferente. Posso estar sentindo de uma forma diferente, senti a minha raiva, mas ainda sinto a saudade, a falta, sinto o tempo passar, as memórias ficando cada vez mais antigas.

Hoje eu sei que eu sinto um monte de coisas e é bom saber que eu posso e tenho o direito de senti-las, porque eu estou viva e viver é sentir e seguir

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