26/02/2020

Todo ano eu escrevo no dia 26 de fevereiro. Uma das primeiras vezes que escrevi, o texto se chamava “um carta que você não vai ler”. Acho que então eu passei a pensar sempre nesse formato. Escrevo pra dizer coisas que eu diria ao pai se ele pudesse me ler.

É isso, pai…

Esse ano, nas férias, eu visitei o parque onde me levava (desde antes de ser parque). Reencontrei a árvore que plantei quando tinha uns 8 ou 9 anos.

Lis e a Lunna adoraram brincar lá, como eu também amava muito e ia com você todo final de semana.

O parque tá diferente, muito diferente, parece um pouco o que era antes de ser um parque, mas as cavernas de cimento ainda estão lá. As cascatas já não funcionam mais. O parquinho é novinho, super bem conservado, mas não é aquele que você brincava com a gente. Tá mais moderno.

Não tem mais pipoca, nem sorvete. A gente adorava comer pipoca e sorvete lá e sentar e jogar pipoca prós peixinhos.

Não fica mais lotado no final de semana, não tem aquele movimento como na nossa época, construíram um parque novo na cidade e todo mundo agora vai lá.

A Lis e a Lunna ainda gostam do parque velho, porque fica perto e dá pra andar de manhã. A minha mãe leva elas, igual você fazia com a gente.

A gente ainda lê as placas com o nome científico das árvores, mas a mata é meio perigosa.

Nessas férias a minha mãe levou a Lis pra andar de moto. Não foi a primeira vez, ela pede pra minha mãe pra passear de moto e fala que é radical. Minha mãe comprou um capacete pra ela.

Lis sempre pergunta alguma coisa de você, conto muitas das nossas histórias, de todas as aventuras que você me ensinou a viver, as vezes ela lamenta por não ter te conhecido, eu boto Raul Seixas pra ela ouvir comigo e lembrar de você.

18 anos hoje, pai. Sua ausência ganhou maior idade, tá emancipada. Tenho em mim hoje, o melhor da sua presença. Eu colho as flores das sementes que você plantou.

Obrigada, pai.
Tempo é qualidade e a gente viveu um tanto!

Outro texto sobre Leila

ME CHAMO LEILA

E nasci com uns 42 anos. Sempre que falado em voz alta, meu nome evoca uma senhora. Segundo a Clara é nome de secretária do Município. Segundo o meu banco de dados primário era nome de tia da escola. No meu colégio eram 3, nenhuma com menos de 20 anos de diferença. Nunca tive uma colega, amiguinha ou conhecida da mesma idade com meu nome lá em Goiás.

Um tempo atrás eu recebi um telefonema, a voz dizia “Leila Guimarães?”. Aí eu respondi “sim, sou eu”. Aí do outro lado “eu também”. Não entendi nada… Na linha tinha uma Leila Guimarães. Ficamos tão empolgadas que já compartilhamos nossa história em 3 minutos. Minha cliente Leila Savary.

Eu cresci com a minha mãe me contando as histórias da Tia Leila, que é como uma mãe pra ela e que eu só tinha visto uma vez quando eu tinha a idade da Lis, mas que eu reecontrei no mês passado, nos vimos durante um velório, eu e tia Leila, conversando sobre nossos nomes e sobre como eu me orgulhava de ter nome dela, uma mulher que foi tão importante na vida da minha mãe ❤️. Tia Leila.

Outro dia eu tava num evento de trabalho e um amigo me disse que uma cliente dele estava no mesmo evento, e o nome dela era Leila. Já fiquei mais que curiosa para ser apresentada, toda Leila me interessa. Fui logo me apresentando e em meio segundo já falávamos sobre quantas Leilas conhecíamos. Era a Leila Milhazes.

Uma vez, em Brasilia, conversando com um amigo sírio, ele me disse que Leila era um nome tão comum como Maria aqui. Imaginei como seria um lugar com mini Leilas na escola que brincavam com outras Leilas.

Segundo o dicionário de nomes, Leila tem origem árabe, significa negra como a noite ou a própria noite, aquela das 1001.

Não sei… Eu sei que quando era criança eu reclamava, hoje eu adoro ser Leila, como a noite, como Maria, como eu. Desse jeitinho… Com 72 anos.