26 de fevereiro

No dia 26 de fevereiro de 2002 ao meio dia a minha casa estava cheia, eram os vizinhos que corriam de um lado para o outro tentando ajudar. No chão da sala estava o meu pai, que tentavam levar para o hospital.

Era pra ter sido uma terça-feira de sol como outra qualquer, minha mãe tinha saído de casa cedo, meu pai tinha saído ainda mais cedo, mas voltou pra casa e tinha passado a manhã deitado em seu quarto.

Pouco antes do almoço, me lembro de entrar no quarto pra falar com ele e reparar que algo estranho estava acontecendo, ele nervoso, pediu que eu saísse. Alguns minutos depois eu escutei a voz dele gritando, quando cheguei no quarto ele me pedia pra chamar ajuda, tentei ligar para os bombeiros, não consegui, corri pro lado de fora, abri o portão, chamei pelos vizinhos, eu repetia aos berros “meu pai está morrendo, me ajuda”…

Todos tentaram ajudar… Mas meu pai morreu.

A Leila que tentou socorrer o pai, tinha 11 anos de idade. A Leila que não conseguiu salvar o próprio pai, tinha 11 anos de idade.

Carreguei isso nos últimos 17 anos da minha vida. Um mês atrás, durante uma sessão da minha terapia eu me peguei gritando falando sobre esse assunto e entendi que apesar de dor, da tristeza e de tantos outros sentimentos que tenho sobre aquele dia, eu sentia raiva…

Raiva pelo que o meu pai fez, por ele ter nos deixado, por ele ter feito eu passar por aquilo como se não se preocupasse por eu ter apenas 11 anos de idade, raiva por como a nossa vida ficou, por como as pessoas nos olhavam, pelos comentários que tive que ouvir, pelos dias dos pais que não tinha pai na escola, pelos presentes que éramos obrigados a fazer.

Eu senti raiva! E nunca tinham me deixado sentir essa raiva antes. Todos me consolavam, pediam aceitação e eu sempre aceitei, mas nesse dia eu senti raiva e eu tinha o direito de sentir, a minha criança machucada precisava sentir e foi libertador.

Nenhum dos sentimentos muda o que aconteceu, nada será capaz de trazer o meu pai de volta, ou apagar a memória das palavras que ouvi, as comemorações incompletas não ficarão completas, mas entender como eu me sinto diante do que aconteceu, me faz conseguir viver melhor comigo mesma agora e foi preciso me permitir sentir e não só o perdão, a aceitação e a superação, mas a raiva também.

Todo ano eu escrevo no dia 26 de fevereiro, hoje não é diferente. Posso estar sentindo de uma forma diferente, senti a minha raiva, mas ainda sinto a saudade, a falta, sinto o tempo passar, as memórias ficando cada vez mais antigas.

Hoje eu sei que eu sinto um monte de coisas e é bom saber que eu posso e tenho o direito de senti-las, porque eu estou viva e viver é sentir e seguir

24h por dia, 7 dias por semana!

Uma semana acordando antes das 6h!

Desde a época da faculdade, onde eu trabalhava, estudava e percorria 50km todo dia, que eu não acordava tão cedo.

Sempre pensava naquela época da minha vida como um tempo que ficou pra trás e eu não tenho a menor ideia de como conseguia sobreviver.

Mas a verdade é que as fases passam, mudam. Depois da faculdade veio a gravidez, a chegada do meu bebê, os quatro meses de cólica, amamentação, alimentação, primeiros passos, palavras, desfralde.

Hoje meus desafios andam de mãos dadas com os da minha filha e tenho vivido com ela a adaptação na nova rotina desse ano. Primeira mudança de escola e agora de turno.

Nosso dia tem sido acordar todas as manhãs “beijinho e hora do banho”, preparo o café, separo uniforme, confiro o casaco na mochila, penteia o cabelo, lembra de escovar os dentes e desce pra esperar a van batendo papo no banquinho.

Ela: segue para a escola nova, espaços novos, pensando se vai fazer amigos, se acostuma com a rotina da van (a melhor parte na opinião dela), as dificuldades com o processo de ensino, os problemas na alfabetização que resultaram na mudança de colégio, a rigidez da escola nova com as regras, as novas atividades que agora se encaixam na rotina semanal.

Eu: Saio de casa sonolenta, tentando conciliar nas horas que tenho, a terapia, o esporte, encontrar amigos, ler o livro em cada espaço que der no metrô, escrever conteúdo, saber da família, trabalho e + trabalho, os livros da escola que ainda não chegaram, o aniversário dela mês que vem, a viagem na semana seguinte, pedidos a responder, ajustes de campanhas, acompanhar umas métricas, ler umas notícias, fazer pesquisa, escutar uma música boa e ainda tem mil coisas me esperando pensar sobre elas.

Nós: No fim da tarde receber ela de volta nos meus braços, encontrar uma expressão de felicidade naquele rostinho. Entrar em casa exaustas, tentar saber de tudo que aconteceu, pelo que ela fala e pelo material todo revisado. Dar o jantar, tentar organizar alguma coisa na casa, coloca a roupa suja na máquina, joga o lixo pra fora, coloca a roupa pra secar, toma banho, dentes, coloca ela na cama, massagem no pézinho (ela curte muito), responde um monte de mensagem, faz a meditação do dia que chega por WhatsApp,

PQP JÁ É TARDE PRA CARAL*@ e amanhã tudo cedo de novo!

Sai dessa internet e vá dormir!

Aí vou eu, exausta… enquanto lá na cabeça ainda penso que sinto falta de levá-la e buscá-la na saída do colégio, mas que ela está crescendo, vai ficar cada dia menos dependente. Sinto orgulho, sinto dor. Sinto sono.