Coração Valente

Nesse clima de mudança, mexendo em papéis, revirando coisas da casa, me deparei com a lembrança que 7 anos atrás descobri a gravidez, nesse mesmo fim de julho.
Lembrei do caminhão de emoções, era uma mistura de medo, amor, insegurança. No meu primeiro exame, aquele onde ouvi o coração galopante dela com apenas 8 semanas e uns milímetros, descobri a força que ela tinha e recebi também a notícia de que ela estava em risco.
Menos de uma semana que eu soube da existência dela e o médico me descarrega a notícia de que eu poderia perdê-la. Sentei no estacionamento do hospital, liguei pra minha mãe, eu chorava muito. Ela me acalmou e disse que ia ficar tudo bem, que eu não iria perdê-la.

Lembro de chegar em casa, me olhar no espelho e falar com ela, nem sabia ainda se era ELA, mas era meu bebê. A gente começou a conversar desde cedo. Tomei progesterona por alguns meses e ela ficou bem. Tudo se desenvolveu normal.

Quando ela estava na barriga, cantávamos parabéns pra ela toda noite, só assim ela parava de se mexer, quando ela nasceu e veio chorando pro meu colo, cantei parabéns, ela reconheceu minha voz e se acalmou.

Falo com ela todos os dias, mas hoje sou eu que me acalmo a ouvir a voz dela.
Feliz 7 anos que te descobri.
Obrigada por me escolher.
Te amo.

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Início de semana

É segunda-feira, acordei pouco antes do despertador me avisar. Levantei com a lerdeza costumeira e fui preparar meu café, me perdi quando não encontrei a mesa para sentar e me lembrei que eu e Duda Ribeiro tratamos de movê-la ontem a noite. Sentei no sofá, comi, fui tomar banho cantando alto. Antes de sair de casa lembrei do livro novo que a Clara Rodrigues me deu ontem e coloquei junto com o roteiro que eu tinha que decupar para a aula de mais tarde dentro da mochila. Caminhei cantarolando até o metrô, me sentei e logo tirei o papel da bolsa para escrever, uma senhora surgiu e me levantei para ceder o lugar e continuei escrevendo em pé. Terminei e fui guardar o papel na bolsa e tirei o livro, quando abri feliz para ler a primeira página, me dei conta de como fui idiota em não fazer isso ontem, na primeira capa do livro uma dedicatória dizia “Que onde você encoste seu barco seja luz. Que tudo que toque seja amor. Você é incrível! Te amo, beijos. Foi uma mistura de OOOOWNN com PUTZ! Como não vi isso antes?.
Com os fones bem ligados comecei a viajar pelas páginas do livro da Rupi Kaur, mega entusiasmada e distraída, sim!, eu leio ouvindo música instrumental e isso só me ajuda, mas não observo nadinha do redor porque considero o metrô um lugar seguro. Na página 35 fui interrompida, um rapaz que percorria o vagão pedindo dinheiro me surpreende com uma flor de mato (nenhum capim sublime, conheço de longe o cheiro de mato ) me sorri e fala “Pra você”. Eu sorri de volta após o milésimo de segundo que demorei para processar o que estava acontecendo e agradeci. Ele aponta para a minha tatuagem recém- pintada e pergunta se e é nova, eu respondo que sim, alguns dias. Ele sorri e diz que gostou, se vira e vai. Eu sorri e voltei pro meu livro. Algumas pessoas por perto sorriram também, talvez apenas por reflexo de seus neurônios espelho.
Desci do metrô com o livro, a flor, a música e o sorriso.

Comecei a semana, já valeu a pena!

Antes das 11h da manhã

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Ainda faltava um tanto para às 11h da manhã
Eu tinha horário marcado às 11h
Sentei na padaria para tomar um café
Fui fazer hora
Da hora que ainda não estava feita
Porque faltava ainda para às 11h.

Na única mesa disponível
Eu me sentei de frente para a rua
Logo na frente do semáforo
Onde param os carros ai sinal vermelho.

Enquanto bebo os goles desse café morno
Observo os vidros abertos e fechados
Mais fechados que abertos
É julho, e no Rio, 21ºC
Está frio, pelo menos para nós.

Vi o senhor de cabelo branco
Que conversava com a senhora do banco do carona
Eu não sei o que diziam, mas sorriam.

Vi o taxista careca e de óculos
Que com os olhos distantes encarava a tintura do carro ao lado
Não sei o que o tinha o reflexo, mas ele refletia.

Do outro lado da rua, a moça do cross fit levanta um ferro pesado
Duas esticadas do braço e sentiu a lombar
Até eu senti
O peso parecia mais pesado que ela.

No vidro fechado do ônibus, o rapaz de casaco vermelho se encosta
No banco de trás o moço de fones de ouvido observa o celular
Não sorri, nem reflete
Só assiste com a cabeça inclinada para baixo.

Na calçada do lado de cá, um moço empurra um carrinho
Parece de bebê, mas era um cachorro
Eu sempre vou sorrir com a mordomia dos bichinhos
Vida de cão, num dia frio antes das 11h da manhã.

Quando o sinal abre, o trânsito flui e todo mundo passa
Não dá tempo de observar
O carro da frente acelera e puxa o outro
Que puxa o outro e o seguinte.

Eu contabilizei, são 50 segundos de sinal fechado
50 segundos de sinal aberto
Estou sentada aqui há um pouco mais de 20 minutos.

Mais de 1000 segundos de vida entre um sinal e outro para observar e viver
Outros 1000 segundos onde tudo sexo o fluxo
Às vezes  quem veio depois corre, ultrapassa o sinal.

Agora chove frio
O café no fundo do copo já está gelado
Falta menos do que faltava para às 11h.

Fiz minha hora em uns 20 e poucos minutos
Vou pegar os sinais do meu caminho
Para parar e seguir
E seguir lembrando de parar.

Parar para ver a vida acontecer
Sendo extraordinariamente ordinal
Ritmada pelos intervalos dos sinais verdes e vermelhos.

Entre os sorrisos com o carona
Os pesos mais pesados que nós mesmos
O cansaço pra encostar ou para assistir
Os reflexos que nos fazem refletir
Ou no aconchego de um mimo.

A vida acontece enquanto eu faço hora.

As minhas Copas

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No primeiro dia de jogo do Brasil na Copa desse ano eu comprei um pack de cerveja, caso alguém viesse aqui pra casa ou caso eu fosse assistir o jogo em algum lugar, um pack com 6 cervejas, e hoje, resolvi tomar a terceira, isso mesmo, só hoje, e ainda hoje, e na verdade, ainda agora, 22h. Então já aviso que esse texto nem está e provavelmente nem será revisado.

Eu bebi menos de um garrafa 343ml de cerveja e já me sinto bêbada o suficiente para vir me confessar aqui, então notem o meu nível de resistência ao álcool. Ao longo da última semana eu escrevi uns 8 textos, não tive paciência, tempo ou vontade de sentar para revisar e digitar nenhum, e justo às 22h dessa sexta de eliminatória resolvi sentar aqui no computador para escrever.

Enquanto eu bebo essa cerveja me sentindo um pouco dormente e flutuante, logo após ter terminado de jantar, comecei a me lembrar do que eu me lembro (parece estranho né? Mas meus pensamentos sempre me soam confusos também).

Hoje, dia em que o Brasil  foi eliminado dessa Copa do Mundo de 2018, eu assisti o jogo ao lado da minha ex-sogra e meu ex-cunhado e também da minha filha, inclusive foi por causa dela que fui assistir o jogo (eu não assisti nenhum outro), ela queria se vestir e torcer, e como vai ser a primeira Copa que ela vai se lembrar eu me lembrei das minhas outras copas.

Em 2014 assisti o 7×1, mas foi tão rápido que nem consigo lembrar com precisão do que aconteceu, antes que eu buscasse uma pipoca na cozinha já tinha desandado tudo. Assisti os jogos na casa do Daniel, que era namorado da Lara, que era minha estagiária que eu havia conhecido naquele ano no trabalho novo. Hoje, Lara e Daniel estão casados e olhe só… Fui eu que celebrei o casamento deles. Fiquei feliz com a lembrança daquele 7×1, quem diria… Hoje aquele apartamento é o lar do casal que faz parte da minha história tanto quanto eu faço parte da história deles.

Em 2010, lembro muito bem o dia que o Brasil perdeu para a Holanda também nas quartas de final. Eu passei o jogo inteiro sentada na minha mesa (vulgo baia), na Esplanada dos Ministérios, tentando controlar uma crise de nervos. No final do jogo cheguei na sala da minha chefe e pedi demissão. Foi uma decisão muito difícil, todos me olharam espantados.  Eu estava lá há dois anos, tinha um emprego estável, não ganhava mal para uma pessoa tão jovem, era querida por todos. Eu tinha abandonado a faculdade de administração e tinha começado a estudar comunicação no ano anterior, estava saturada de toda a rotina do trabalho burocrático no meio público. Minha chefe se preocupou, mas me apoiou. Hoje eu a chamo de mãe, mesmo não morando mais em Brasília, sempre frequento sua casa, me sinto parte da família. Ela esteve ao meu lado em vários momentos da minha vida e tudo isso eu devo aquela oportunidade de ter estado ali. Mesmo que tenha deixado tudo para trás no dia da eliminação da Copa. Eu comecei no mês seguinte a trabalhar com comunicação e não parei nunca mais.

De 2006 eu tenho pouca ou quase nenhuma memória sobre a Copa, lembro da cabeçada do Zidane, lembro de Felipão, e graças ao amor do meu irmão pelo futebol e pelos vídeo games eu me lembro dos nomes de Buffon e Thierry Henry, esses eu nunca esqueci e deve ser só. Eu estava no auge da minha adolescência rebelde e eu não assistia muita coisa da Copa, mas foi nesse ano que eu assistia Lost.

2002 foi um ano muito marcante na história da minha vida, e teve Copa, e eu lembro perfeitamente de comemorar o penta. Não me lembro por qual motivo, estávamos só e eu e minha mãe e no final do jogo fomos para a praça da cidade onde todo mundo se reuniu. 2002 foi um ano muito LOKO. Meu pai havia morrido em fevereiro, a Copa foi logo em seguida, os jogos eram de madrugada, me lembro de assistir a abertura com toda a técnica asiática. Logo após o Brasil conquistar o título vieram as eleições e eu me lembro que o Lula ganhou. Eu cresci com meu pai mega fã do Lula, mas foi estranho ver que ele não viveu para assistir o candidato dele chegar ao poder. Nesse 2018 eu chorei ao ver o Lula sendo preso, não por pena, mas por decepção, por ver o que a sede de poder causa aos homens, cheguei a escrever uma carta que meu pai não vai ler, mas contei pra ele que o Lula ganhou em 2002 e foi parar na cadeia em 2018 e ele não viveu pra ver nada disso.

1998 foi a primeira Copa de que tenho memórias “racionais”, eu tinha 8 anos de idade, lembro muito bem dos jogos, do movimento do pessoal da minha rua, das bandeiras envolvendo os torcedores, de eu entendendo o que era aquilo. Me lembro de todo mundo comentando o título anterior, mas eu era só uma criança. Em 1998 eu tive a coleção toda as ararajubas amarelinhas. Comi pipoca e tomei guaraná e vi o país parar pra assistir a derrota para a França. Depois do jogo eu só lembro que fui andar de bicicleta na rua.

A Copa de 1994 foi, e eu nem lembro o que foi. Só foi mesmo. A gente ganhou, eu sei, me disseram. Eu tenho uma vaga lembrança de coisas daquela fase. A casa que morava (em todas as copas eu morei em uma casa diferente), eu entrando para a escola, o dia em que um prego acertou o meio da minha testa e até hoje eu tenho uma “covinha” no meio da testa graças a isso, foi nessa época que tive a única barbie da minha vida (porque nunca mais tive outra), foi mais ou menos nessa época que eu fiquei doente e quem diria, voltaríamos aqui ao que me levou a começar o texto, graças a uma hepatite lá em 1994/5, eu até hoje evito beber porque o meu fígado nunca será 100%.

E aqui eu vou terminando, porque a Copa de 1990 aconteceu quando eu nasci e eu vou ali ligar pra minha mãe pra perguntar como foi minha copa recém nascida.

Se você leu essa descrição das minhas poucas Copas e se sentiu velho porque se lembra muito do Tetra, saiba que assim como você eu também já me sinto velha e acredite você ou não… Ainda nem tenho 30 e nos últimos meses tenho aprendido a aceitar que minha cabeça está quase toda branca, e mesmo todo mundo rindo e dizendo que não ninguém vai reparar porque eu sou loira… Eu reparo… E já é o bastante…

Se você leu isso e tá se achando um bebê porque mal lembrou da sua Copa de 4 anos atrás… Parabéns… Colecione histórias, a vida só vai andar para frente.

Escreva sua copas, sua vida, conquiste seus títulos, faça seu jogo, entre em campo, lute e se não der nessa partida, segue o baile que a próxima vem!

Meus cumprimentos semi-embriagados com uma longneck.