Uma carta que você não vai ler

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Tem um pouco do seu olhar morando no brilho dos olhos de alguém que você nunca conheceu.
Tem um pouco do toque suave das suas mãos no abraço de algum amigo.
Tem o jeito do seu sorriso no meu sorriso pro espelho.

Há dias em que tenho a ilusão, outros não.
Há dias que você está vivo, mas há outros em que lembro que você morreu faz tempo.
Há dias que eu não penso.

Existe alguma música que só consigo escutar com você, de ouvidos bem atentos e olhos bem fechados. Eu quase consigo sentir o toque da sua mão gordinha, como quando eu tinha um medo e você me apoiava.
Tem muito de você em mim, coisas que eu não tive tempo de conhecer, mas eu ouvi dizer que são heranças suas.

Nós já não mais podemos nos falar, mas eu sei que de algum modo a gente se comunica. São meus pensamentos, minhas memórias e as projeções de coisas que nunca irão se tornar reais. Já pensei em coisas que poderíamos fazer hoje, como um almoço durante a semana, uma viagem de férias, uma passeio em qualquer lugar, um abraço.

Eu penso se seríamos bons amigos, eu acredito que sim. Penso que iria te visitar ou cuidar de você quando estivesse doente, nós comemoraríamos o seu aniversário no dia das crianças. Eu penso que seríamos grandes parceiros.

Hoje eu não posso ter nenhuma dessas certezas. Eu guardo os meus pensamentos algumas vezes ou, como hoje, eu escrevo. Quando eu leio em voz alta, parece que você poderia me ouvir. Da minha maneira eu te conto o que eu penso e como eu me sinto. Eu queria que você tivesse me contado o que você pensava e principalmente o que você sentia, poderia ter contato para qualquer outra pessoa.

Talvez, se você tivesse falado, hoje eu não iria dizer que já faz 15 anos que você se foi. 

Eu torço para que ninguém  mais cale os sentimentos, para não calar a vida antes do tempo. Que se possa viver e conviver com  todo e tudo o que ainda vem. Que se entenda que mesmo com a dor, a vida ainda pode ter uma razão de ser. Que não se pense em viver apenas nas poucas memórias e muitas projeções da cabeça de quem ficou, mas escolher viver para fazer acontecer, mesmo que seja um curto almoço num dia qualquer da semana.

Essa era uma carta, uma postagem, uma mensagem… Algo que você não vai ler, mas que alguém vai, alguém que ainda está por aqui, como há 15 anos você esteve. Essa é uma carta pra dizer que eu tenho aqui os meus ouvidos para ouvir, os meus braços para abraçar, meu colo para alguém que se sente como você se sentiu possa usar.

Essa é uma carta pra dizer que eu não quero ver ninguém desistindo. 

Eu ia postar no dia 26, mas quando se trata de viver, todo tempo é precioso.

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