Seleção de papéis

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É bom gostar de histórias. Eu adoro ouvi-las, mas não todas. Algumas específicas me deixam muito mais interessada.

Se a nossa memória é seletiva, a ponto de não permitir que nos lembremos detalhadamente de tudo que nos acontece. Se nós não podemos repetir os fatos da maneira exata que aconteceram, visto que a riqueza de detalhes tomaria tempo demais, impedindo-nos de viver fatos novos, nós devemos também ser mais seletos sobre os fatos que nos importam. Tanto na hora de narrar, quanto no momento em que os absorvemos.

Não me contem todas as suas histórias, talvez eu goste mais de você assim, …não…, com certeza eu gosto mais de você assim. Como um personagem de um livro, que se apresenta em uns 3 ou 5 dias, que me conta sua trajetória em fatos muito bem selecionados, mas não me conta tudo, não permite que eu saiba demais.

É possível viver para criar um personagem? Para ser apenas um? Por quantas páginas você consegue sustentar a sua história, sem tropeçar nas confusões da sua narrativa?

Talvez eu gostasse mais de você, quando eu sabia menos a seu respeito, quando eu não sabia como você realmente era, quando eu limitava meu olhar, meus ouvidos e a minha atenção. Erro meu, talvez. Talvez meu acerto. Posso me permitir, ao menos agora, selecionar os personagens das histórias que eu quero contar, das que eu quero ouvir e se eu me cansar desses personagens, eu posso trocar de livro também.

Eu mudo de história.
Eu leio outras linhas.
Eu omito outras entrelinhas.

Mas se eu quiser, queimo cada página da sua história ruim, apenas para fazer que você suma da minha biblioteca, do meu repertório, da minha pesquisa. Assim sua história não se entrelaça com meus outros personagens, talvez com os meus personagens prediletos, deixando que o que é bom, ainda fique aqui, entre a minha seleção.

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Química 

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É como compor uma música.

Ao tocar da campainha você já sabe que vai começar.

O molho de chaves se balança para me dar as boas vindas, te olho, te beijo, e ouço o som que a sua boca faz quando toca a minha.

Converso reparando no som que o cigarro faz quando você atira as cinzas ao cinzeiro.

Entre distantes risadas e um gole e outro d’água. Você ouve…

A minha língua saindo da boca e percorrendo o seu pescoço, chegando em seus ouvidos tornando mais altos os sons.

A cadeira gira, e eu ouço o som que a sua mão produz enquanto percorre o meu corpo de cima a baixo.

E nossas respirações que oscilam entre beijos, sussurros, sorrisos discretos e novamente beijos.

O som que seu cabelo faz enquanto se envolve em meus dedos. E os nossos passos andando pela casa.

O som do peso do corpo caindo sobre a cama, e a sua língua, que dessa vez percorre todo meu corpo, enquanto seus meticulosos dedos abrem os botões da minha blusa, me despindo não só das roupas, mas de todos os pudores.

Sua sinestesia é auditiva e você ouve, o som da minha voz que te fala aos ouvidos palavras vulgares seguidas de repetidos sussurros de prazer.

Você ouve o som que faz o seu corpo no meu, e ritma nossas respirações.

Consigo perceber o suor que sai do seu corpo e o percorre todo, assim como o meu desejo por você.

Os corpos, vozes, bocas…

Gemidos, sussurros, gotas de suor.

É como se dançássemos uma peça, esperando pelo momento ápice do ato.

E então que se ouve mais alto, mais intenso, mais tudo.

É então…

Que os corpos desaceleram.

E as respirações ofegantes vão se acalmando.

E os dedos voltam a tocar os cabelos, assim como os lábios voltam e se encostar.

Agora já com mais calma, tudo se recompõe.

Sonata para um novo sol

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Toca Beethoven no meu rádio
É como se cada nota no piano me despertasse um tanto da beleza da vida
Como se pelas minhas veias corressem pétalas das mais belas e perfumadas flores
Como se um rio de água corrente e gelada passasse embaixo dos meus pés
O vento suave tocasse cada poro da minha pele, compondo esse som com a sensação delicada do tato, da carícia, do sopro.

Como se a luz do pôr do sol refletisse na minha pele e na grama
Grama em que suavemente eu me deito ao ver o dia morrer no nascer da noite
E vejo brilhar as estrelas, uma a uma
Desenhando um imenso plano de fundo para a Lua.

E a Lua.
Que brilha e ilumina entre sombras
Que traz o contraste e faz as cores do céu mais intensas, quando observado de maneira duradoura e insistente.

É o som dos meus olhos se abrindo e desenhando as letras nesse caderno, e sonhando acordada, dançando só e com o mundo
E com os sorriso nos lábios, lábios que beijam o vento, sentindo o sabor que percorre cada uma das minhas papilas.

E eu sentindo
Eu sentido
Completamente eu sou e sinto o som.

É quando as pontas dos dedos se conhecem
Quando as digitais se encontram, mostrando o quão extintos estamos, desde que nascemos, mas ainda sim, nós nos damos as mãos.

Nós nos colocamos em meios, em rodas, em círculos. Nos colocamos a dançar, dançamos, contornamos.
Nós abrimos e fechamos, os círculos, os ciclos. Renovamos, reciclamos, renascemos novamente, como a luz do sol.
Novamente com o frescor do vento, com a beleza do reflexo de um raio solar entre as folhas da copa de uma árvore.

E eu sentindo
Eu faço sentido
Completamente eu sou e me sinto VIVA.