Ensaio

Eu vim ao mundo ainda há pouco, tenho me habituado dia a dia a vida por aqui.
Perco-me fácil nos meus limites, te atinjo, mesmo sem querer.
Nem sempre posso demonstrar que sou feliz.

Há dias que tudo me dói, a cabeça, os ombros e a alma. Eu queria tanto poder te dizer a respeito de tudo aquelo que eu já quis, mas eu emudeço, não encontro os meios e guardo nos meus porões esses e tantos outros dizeres.

Eu tenho medo de deixar de ser invisível e me tornar tornar transparente. Tem tanta gente que não me olha, que talvez quisesse enxergar dentro de mim, só pra me julgar os erros, sem nunca verificar minhas tentativas de acerto.

Mas estamos todos nos habituando, chegamos outro dia a esse mundo, nem sabemos por quanto tempo ficamos, vamos tentando.

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Fuga

Eu não preciso falar
Não preciso pedir
Você já sabia
Você sempre sabe

Não há nenhuma explicação
Desnecessário
É sempre assim

Sem nenhuma palavra
Converso com você por horas
Enquanto nos olhamos
Decorei cada nota do sorriso

Leio os seus desejos
Enquanto você realiza os meus
Não há planos
Agimos

Abra a porta quando eu voltar
Estou saindo
Sem me despedir
Mas você já sabia

Santa

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É como um interior, oculto no coração da cidade.

Um igreja, uma praça, vizinhos nas calçadas a conversar. Pelas ruas as crianças ainda correm e brincam, sem se importar em perder os tampos dos dedos enquanto descem as ladeiras atrás de uma bola.

No meio da rua, uma banda de Gipsy jazz composta por estrangeiros. O atendimento ainda é bom e a vista…Ah, a vista!
Do alto daquelas ladeiras a cidade lá embaixo é só um emaranhado de luzes disformes, e o som de lá se dissipa com as vozes, a música e as risadas na porta de cada bar.

O comum é desigual e o diferente aqui é completamente corriqueiro. Fosse eu Portinari, faria um quadro e retrataria essas ruas como ele fez com Brodowski, mas eu não sei pintar, só sei escrever. Entre uma gargalhada e outra de criança, um carro passa. Eu ouço vários idiomas, como numa Babilônia, sem caos. Só paz. Um carnaval de alegria e fantasias.

O tempo passa lentamente enquanto os cães também passeiam, as mães alimentam e ninam os bebês. Não há curiosos nas janelas, eles se sentam nas ruas, falam enquanto gesticulam com os braços, perguntam sobre seus dias, suas tardes, suas noites e suas vidas. Eles ainda se importam por aqui. Os vizinhos se conhecem, os amigos se reconhecem, as tribos se encontram.

Tudo isso passava diante dos meus olhos e eu observei, sentada na escada, entre um gole d’água e outro de vinho, como quem compara a transformação entre os dois sabores com a mudança da vida la em cima e aqui embaixo.