A Vida Edifício

 
 

Eram três andares…

No primeiro deles, um casal de idosos. Ela já debilitada e nada fácil, vive sob os cuidados dele, que apesar da idade se desdobra.

No andar do meio, um casal com um bebê, jovens pais de um garoto lindo e travesso que aprendem com o dia a dia as dores e as delícias da vida de pais.

No terceiro andar, uma mãe e uma adolescente que tentam manter um diálogo entre seus planetas.

Pela manhã… No primeiro andar ele prepara o banho dela, enquanto a carrega no colo, orientando como ela deve ou não agir. 

No segundo andar, um deles prepara o banho dele, enquanto o outro com está ele no colo, esperando que ele também se comporte.

No terceiro andar, ela se prepara para o banho, enquanto espera que ela saia do chuveiro e aprenda como agir.

Ele grita com ela no primeiro andar, por não o esperar e levantar sem apoio.

Eles gritam com ele no segundo andar, por ele conseguir se levantar sem apoio.

No terceiro andar… Elas gritam…

No primeiro andar, ele a senta na mesa e serve o almoço a ela, assoprando pra que ela não se queime.

No segundo andar, eles servem o almoço para ele com todo cuidado para que ele experimente tudo e vá até o final.

No terceiro andar, ela espera o retorno da escola para servir o almoço e sentar-se com ela.

Há movimentos da vida em cima, no meio e embaixo, com prazos pra lá e pra cá. 

No primeiro andar, logo se ouvirá menos barulho e talvez ele e ela já não serão mais dois. No segundo andar, se ouvirão mais passos, mais vozes, mais risos, mais gritos, mais musicas e palmas e logo eles serão completos três. No terceiro andar, os planetas ainda se desalinham, até que um dia um deles descobre sua órbita é parte em busca da sua jornada.

Com o tempo todos os andares mudarão de ritmo, o que era cheio vai ficar mais vazio, uma hora todos se vão, para seguir seus caminhos e aí não são mais gritos de euforia, de discussão ou de orientação que irão dizer mais nada. Quando tudo encontrar seu tempo, vai falar mais o silêncio, de um olhar, de um abraço ou de saudade, mas não precisará mais barulho…

É nessa hora que os três andares não se diferenciam, porque a vida é questão de tempo e de tempos em tempos nos descobrimos outros, com nossos barulhos externos e internos aprendemos que a vida vai nos mudar de andar e a casa que eu habitei hoje, vai comigo pra onde eu for amanhã. 

Um edifício cheio de vidas.

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