Eu ainda estou morando comigo!

Eu ainda estou morando comigo!

Quando eu mudei pra essa casa eu escrevi um texto que dizia que eu vim morar comigo e que eu escolhi ser boa anfitriã e boa hóspede.

Nos últimos 60 e poucos dias eu tenho convivido muito mais comigo nessa casa, sigo lembrando do trato e aprendendo no tranco.

Eu também escrevi nesse mesmo texto que minha casa seria um refúgio e não uma forteleza e sigo me refugiando em mim e sendo forte até pra admitir quando não sou.

Eu tinha escrito que aos poucos eu traria pra dentro só o que me importa e os quadros da Lis viraram uma galeria na parede.

Eu sigo observando a janela, descobrindo novos ângulos pra experimentar as cores de um mesmo dia.

Eu disse que nas ausências havia espaços e tenho experimentado alguns. 🏠 🧘🏼‍♀️Mas sigo habitando essa casa construída por mim.

Que dia é hoje?

Dia 23 ou 24…que dia é hoje?

Tenho bebido chá toda noite, às vezes depois do vinho, mas tenho…

Não frequento mais a padaria, mas ainda gosto de pão fresquinho.

Jazz às vezes é melhor que muita gente, mas rock me faz gritar. E eu tenho gritado.

Pijama ocupa pouco espaço na máquina de lavar, calçados estão ficando cobertos de poeira na sapateira.

Louças nunca tem fim, nunca…

Já parei de acreditar em bad hair day, é só day com esse hair…

Tô passando maquiagem pra aparecer nas lives, ufa…. Fiquei com medo de ressecar aquilo ali tudo…

Será que se eu jogar a semente de abóbora no vaso da sala ela cresce? (Veremos em breve).

Larguei um vaso com terra na área de serviço, tem dois brotos desconhecidos saindo da terra, podem ser plantas alienígenas… São fofinhos 🥰.

Minha mão tá ficando lisa, talvez eu já tenha perdido a digital, mas não fui barrada na catraca da academia e nem fui ao banco pra saber.

Botei meias e tênis hoje, me dão segurança, não sei de que, mas dão.

Beijos pra você aí do outro lado, se você leu até aqui, me responde 🤸🏼‍♂️.

Dia 18

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Café da manhã com pensamentos, não de agora, mas de sempre.

Não é de hoje que eu aprendi a carregar saudades no bolso. Nunca deixei ela me carregar no colo. No meu abraço só cabe um amor imenso que às vezes espera um pouco pra ser compartilhado.

Já faz muito tempo que eu sei que amigo não mora longe porque tá sempre dentro do coração da gente.
Hoje eu pensei nas 3599 vezes que falamos em fazer uma viagem mirabolante juntos e por um monte de razões acabamos não indo, pensei também nas outras milhares de vezes que viajamos juntos, até sem sair do lugar. Se a gente não rodou o mundo de mochila nas costas, o mundo já rodou por nós tantas vezes e a beleza é que a gente nunca se perdeu.

Já postei tantas vezes essa foto e sabe-se lá quantas vezes ainda postarei… Não é de chegada ou de partida, é o abraço. Daqueles que a gente aprecia de olhos fechados, que é pra enxergar por dentro.

Tudo que a gente ama está acessível na distância de fechar de olhos, no tempo do silêncio de uma respiração profunda.

🙏❤️ Cuide você, cuide dos seus!

Fiquem em casa!

Ótimo dia 😘

Dia 17

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Não tenho foto boa de nós juntos e nessa faltou a Laura, estagiária.
Não tivemos tempo pra sentir tédio na quarentena, já são 17 dias em casa que estamos trabalhado exaustivamente sem se quer aquela ida na cozinha pra tomar um café e falar besteira juntos.

A gente se fala da hora que acorda até a hora que vai dormir. Às vezes rimos juntos pelos áudios do whatsapp ou nas nossas videoconferências e geralmente é fazendo piadas de nós mesmos e da loucura que estamos passando.

Está sendo uma corrida contra o tempo pra pensar, elaborar e fazer uma comunicação acontecer de maneira construtiva para nós e para todas as pessoas com quem queremos falar. Muitas vezes tem sido mais correr e fazer do que parar pra elaborar, porque a gente precisa agir rápido.

Toda ação gera uma reação e a cada reação que volta pra gente, meu sentimento é só de orgulho e alegria de estar construindo a história desse momento ao lado de vocês.
Mais do que os dados, os números, as palavras… O sentimento que tem movido tudo isso é muito Nobre.

Certeza que quando isso passar, a pessoa que vai voltar a sentar na mesa da pontinha do corredor não será a mesma.

Tô cansada, mas sou grata. Eu acredito muito no que a gente está fazendo juntos!

Um tempo pequeno pro tamanho das mudanças e conquistas.

Obrigada, time! ❤️ A lição maior é essa… O coletivo unido faz muito mais.

Dia 15

15

Minhas primeiras 24h da quarentena sozinha. Fiz faxina, cozinhei, assisti uma série inteira, sigo não dormindo muito, mas a casa tá tão arrumadinha que dá gosto 😄💙.

Estou possuindo essa vasta cabeleira que me irrita um pouco. Algumas vezes tenho vontade de ficar careca de novo, mas lembro do quanto coçava a cabeça e que queimava muito andar no sol, apesar de eu não estar andando no sol.

Tomei café da manhã na cama, feito por euzinha mesma e servido na bandejinha. Ái ái… Já acordei me agradando hoje… Ainda não estou conversando sozinha, mas canto em espanhol o dia inteiro.

Hoje meus amigos da faculdade marcaram de se ligar. Tem 8 anos que não conseguimos nos reunir todos, mas quem sabe a Pandemia faz esse milagre virtual, fiquei animadíssima.

O dia tá lindo, fica em casa!

Beijão 😘

#fiqueemcasa

COMO LAGARTA VIRA BORBOLETA?

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Há dois anos eu faço Terapia Cognitiva Comportamental, boa parte do meu processo na terapia é focado em ter consciência das minha ações, resultados de pensamentos automáticos e assim… Toda a cadeia de automatização do comportamento.

Há quase 5 anos eu comecei a estudar Neurociência, me apaixonei por conhecer a fisiologia do cérebro, somava as novas leituras com o estudo de psicologia comportamental da faculdade e por aí foi… Ano retrasado cursei neuromarketing e ano passado Neurociência da comunicação e mesmo assim… O cérebro continua a ser um grande oceano abissal e eu uma mergulhadora com uma lanterninha.

Hoje de manhã abri o armário para pegar o leite em pó e o achocolatado e me dei conta que o achocolatado estava em outro armário, pensei comigo mesma “de novo, Leila?”, ontem eu tinha me deparado com a mesma situação e me questionei sobre a razão das duas coisas não estarem no mesmo lugar já que só são usadas juntas, não vi sentido, mas automaticamente na hora de guardar eu coloquei de novo em lugares diferentes.

Hoje eu agi com consciência, tratei de usar e logo em seguida guardar os dois juntos, no mesmo armário, do jeitinho que penso que seria melhor estar. Fiquei feliz por mudar um comportamento inconsciente e dobrar o conforto cognitivo do meu cérebro.

Mas qual o motivo de dizer isso tudo enquanto tomo café?

Só pra pensar que nunca é tarde pra mudar velhos hábitos e principalmente para se dar conta deles. A quarentena é um bom período para observar, se observar.

🦋 Lagarta só vira borboleta depois que entra no casulo.

Sextou, quarenteners. Pelos que não podem… Estou em casa por vocês 😘

#FicaEmcasa

O último encontro com o biso

Meu último encontro com o biso.

Foi em 2016 a última vez que passei na casa do biso pra me despedir antes de voltar pra casa.

Sentados na cadeira de plástico da varanda, tomamos café com biscoito que ele fazia questão de colocar a mesa.

De algum lugar saíram os caderninhos de poesia dele que eu tive a honra de ler enquanto ele olhava pra cima e escutava lembrando da sua própria história narrada ali.

Me emocionei no meio do caminho. Não sabia que não o veria de novo, mas há muito que cada encontro eu tratava como despedida.
Biso se foi há dois anos. Foram 99 anos de vida, de dureza, de história, lida, de silêncio e de palavras na poesia.
Guardei alguns registros desse dia, uns palpáveis, outros não.

Quando a quarentena acabar

Fiquei sabendo que quando tudo passar vai ter Carnaval de novo. Já reservei a purpurina.

Esse ano foi a primeira vez que curti o carnaval de rua do Rio e o que eu mais gostei foi ver a rua cheia, me senti segura, senti que a cidade era cheia de alegria. Fiquei muito feliz em ver as pessoas fantasiadas, dançando, até me fantasiei também. Todo mundo sorria, as pessoas se falavam, a gente andava juntos pros lugares…

Tomara que depois que tudo passar seja carnaval sempre, mesmo sem bloco ou escola de samba, mas que a gente ocupe com carinho os espaços, cuide da cidade, cuide das pessoas, se sinta seguro, promova segurança, que a gente coopere, faça a voz do bloco chegar mais longe, que a gente consiga dançar… Mesmo se não tiver música.

#FicaEmcasa

26/02/2020

Todo ano eu escrevo no dia 26 de fevereiro. Uma das primeiras vezes que escrevi, o texto se chamava “um carta que você não vai ler”. Acho que então eu passei a pensar sempre nesse formato. Escrevo pra dizer coisas que eu diria ao pai se ele pudesse me ler.

É isso, pai…

Esse ano, nas férias, eu visitei o parque onde me levava (desde antes de ser parque). Reencontrei a árvore que plantei quando tinha uns 8 ou 9 anos.

Lis e a Lunna adoraram brincar lá, como eu também amava muito e ia com você todo final de semana.

O parque tá diferente, muito diferente, parece um pouco o que era antes de ser um parque, mas as cavernas de cimento ainda estão lá. As cascatas já não funcionam mais. O parquinho é novinho, super bem conservado, mas não é aquele que você brincava com a gente. Tá mais moderno.

Não tem mais pipoca, nem sorvete. A gente adorava comer pipoca e sorvete lá e sentar e jogar pipoca prós peixinhos.

Não fica mais lotado no final de semana, não tem aquele movimento como na nossa época, construíram um parque novo na cidade e todo mundo agora vai lá.

A Lis e a Lunna ainda gostam do parque velho, porque fica perto e dá pra andar de manhã. A minha mãe leva elas, igual você fazia com a gente.

A gente ainda lê as placas com o nome científico das árvores, mas a mata é meio perigosa.

Nessas férias a minha mãe levou a Lis pra andar de moto. Não foi a primeira vez, ela pede pra minha mãe pra passear de moto e fala que é radical. Minha mãe comprou um capacete pra ela.

Lis sempre pergunta alguma coisa de você, conto muitas das nossas histórias, de todas as aventuras que você me ensinou a viver, as vezes ela lamenta por não ter te conhecido, eu boto Raul Seixas pra ela ouvir comigo e lembrar de você.

18 anos hoje, pai. Sua ausência ganhou maior idade, tá emancipada. Tenho em mim hoje, o melhor da sua presença. Eu colho as flores das sementes que você plantou.

Obrigada, pai.
Tempo é qualidade e a gente viveu um tanto!

Outro texto sobre Leila

ME CHAMO LEILA

E nasci com uns 42 anos. Sempre que falado em voz alta, meu nome evoca uma senhora. Segundo a Clara é nome de secretária do Município. Segundo o meu banco de dados primário era nome de tia da escola. No meu colégio eram 3, nenhuma com menos de 20 anos de diferença. Nunca tive uma colega, amiguinha ou conhecida da mesma idade com meu nome lá em Goiás.

Um tempo atrás eu recebi um telefonema, a voz dizia “Leila Guimarães?”. Aí eu respondi “sim, sou eu”. Aí do outro lado “eu também”. Não entendi nada… Na linha tinha uma Leila Guimarães. Ficamos tão empolgadas que já compartilhamos nossa história em 3 minutos. Minha cliente Leila Savary.

Eu cresci com a minha mãe me contando as histórias da Tia Leila, que é como uma mãe pra ela e que eu só tinha visto uma vez quando eu tinha a idade da Lis, mas que eu reecontrei no mês passado, nos vimos durante um velório, eu e tia Leila, conversando sobre nossos nomes e sobre como eu me orgulhava de ter nome dela, uma mulher que foi tão importante na vida da minha mãe ❤️. Tia Leila.

Outro dia eu tava num evento de trabalho e um amigo me disse que uma cliente dele estava no mesmo evento, e o nome dela era Leila. Já fiquei mais que curiosa para ser apresentada, toda Leila me interessa. Fui logo me apresentando e em meio segundo já falávamos sobre quantas Leilas conhecíamos. Era a Leila Milhazes.

Uma vez, em Brasilia, conversando com um amigo sírio, ele me disse que Leila era um nome tão comum como Maria aqui. Imaginei como seria um lugar com mini Leilas na escola que brincavam com outras Leilas.

Segundo o dicionário de nomes, Leila tem origem árabe, significa negra como a noite ou a própria noite, aquela das 1001.

Não sei… Eu sei que quando era criança eu reclamava, hoje eu adoro ser Leila, como a noite, como Maria, como eu. Desse jeitinho… Com 72 anos.

Transição

Leila
1h da manhã!

Uma coisa que ninguém me contou sobre essa metamorfose – e eu vou chamar assim esse processo que me transformou literalmente começando da cabeça -, foi que tomar banho e lavar a cabeça ia se tornar algo tão incrível.

Quando eu alisava o cabelo, tinha a maior questão sobre lavar os cabelos todo dia, era acordar cedo e ficar horas secando, muitas vezes eu tomava banho me esquivando, me encolhendo, quase fazendo a coreografia do Matrix, e agora em todo banho eu alongo os braços e deixo a água cair.
É a sensação maravilhosa de um mergulho de cabeça. É como tomar banho de mar ou na queda de uma cachoeira.
É levantar a cabeça e deixar fluir o que vem e o que vai.

E não tem hora e nem limite, é livre ❤️ quando eu quiser, quanto eu quiser.

VIVA as mudanças!

Viva as mudanças que nos viram pela cabeça, que nos viram começando  pela cabeça.

Como no Cabo

O dia era parecido com o de hoje.

17ºC só que sem chuva.

Depois de duas noites, o choque de temperatura já parecia mais agradável.

Foram uns 4km de caminhada descalça na areia, eu tinha deixado o chinelo no início da praia, só deixei e continuei andando.

Subi uma duna de areia, no meio de muitas, era um grande plano de silêncio, quebrado apenas pelo som do vento e do mar.

Deu uma vontade absurda de dançar, dancei, colocando o lenço que cobria as minhas costas contra o vento.

Lembro de lá de cima olhar o mar, as nuvens, um monte de areia e algumas dúzias de casinhas ao redor do farol.

Parecia que tudo andava devagar, não havia motivo para pressa era só estar lá. Um Cabo onde tudo se desconecta pra poder se reconectar com o mais importante.

Que bom que estive para sentir e que bom que sinto para poder estar.

🙃

Percepção

 

Hoje de manhã eu caminhava pela calçada em direção ao metrô, de passagem pela porta de uma casa, vi 3 capas de CDs jogadas, flash de segundo, suficiente para ler o Rita Lee e Cat Stevens.
Continuei andando rápido enquanto congelei por dentro. Fotografei só com o olhar.

Como sempre, racionalizei… lembrei que ontem à noite lia sobre emoção e sentimento. Emoções são programas de ação coordenados pelo cérebro, que gerenciam alterações em todo o corpo. Emoções são automáticas, não controladas conscientemente.

O sentimento é a percepção consciente e parcial das emoções.

As estruturas do cérebro que medeiam emoções não são as mesmas dos sentimentos, mas num flash de segundo enquanto olhava as capas dos CDs, meu coração disparou ou quase parou, minha mão suou, engoli seco.

Conscientemente puxei o telefone do bolso e busquei “moonshadow” na minha playlist, segui a caminhada até o metrô emocionada e sentida… Consegui andar pra frente e voltar ao passado, ao mesmo tempo… Escolha consciente e parcial de sentir essa saudade que deu agora de discutir mutantes e dançar no meio da sala.

Pegadinhas que a vida prega na minha razão pra jogar na minha cara que nem tudo está sob controle porque não é e nem precisa estar.

Prazer, eu

Deslizo pelo cômodo, me sacudo ao som da música que me desperta de dentro para fora
RIO- ME

Da vista translúcida, o desenho das nuvens brancas e muitas, mas que não escondem o brilho do luar.

ASCENDO-ME

Como se a beleza tivesse um sabor que pousa na ponta da minha língua

DERRETO-ME

Desenho em forma e movimento as letras que contam quem sou

DECIFRO-ME

Exploro cada pedaço que há pra sentir

TOCO-ME

Vou além e me mostro um depois

TRANSCENDO-ME

Permito ser lida, reescrevida e redesenhada

BRINCO-ME

Mergulho em sinapses aceleradas

CONECTO-ME

Falo e me escuto

REVELO-ME

Aceito, não nego

Prazer, eu!

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26 de fevereiro

No dia 26 de fevereiro de 2002 ao meio dia a minha casa estava cheia, eram os vizinhos que corriam de um lado para o outro tentando ajudar. No chão da sala estava o meu pai, que tentavam levar para o hospital.

Era pra ter sido uma terça-feira de sol como outra qualquer, minha mãe tinha saído de casa cedo, meu pai tinha saído ainda mais cedo, mas voltou pra casa e tinha passado a manhã deitado em seu quarto.

Pouco antes do almoço, me lembro de entrar no quarto pra falar com ele e reparar que algo estranho estava acontecendo, ele nervoso, pediu que eu saísse. Alguns minutos depois eu escutei a voz dele gritando, quando cheguei no quarto ele me pedia pra chamar ajuda, tentei ligar para os bombeiros, não consegui, corri pro lado de fora, abri o portão, chamei pelos vizinhos, eu repetia aos berros “meu pai está morrendo, me ajuda”…

Todos tentaram ajudar… Mas meu pai morreu.

A Leila que tentou socorrer o pai, tinha 11 anos de idade. A Leila que não conseguiu salvar o próprio pai, tinha 11 anos de idade.

Carreguei isso nos últimos 17 anos da minha vida. Um mês atrás, durante uma sessão da minha terapia eu me peguei gritando falando sobre esse assunto e entendi que apesar de dor, da tristeza e de tantos outros sentimentos que tenho sobre aquele dia, eu sentia raiva…

Raiva pelo que o meu pai fez, por ele ter nos deixado, por ele ter feito eu passar por aquilo como se não se preocupasse por eu ter apenas 11 anos de idade, raiva por como a nossa vida ficou, por como as pessoas nos olhavam, pelos comentários que tive que ouvir, pelos dias dos pais que não tinha pai na escola, pelos presentes que éramos obrigados a fazer.

Eu senti raiva! E nunca tinham me deixado sentir essa raiva antes. Todos me consolavam, pediam aceitação e eu sempre aceitei, mas nesse dia eu senti raiva e eu tinha o direito de sentir, a minha criança machucada precisava sentir e foi libertador.

Nenhum dos sentimentos muda o que aconteceu, nada será capaz de trazer o meu pai de volta, ou apagar a memória das palavras que ouvi, as comemorações incompletas não ficarão completas, mas entender como eu me sinto diante do que aconteceu, me faz conseguir viver melhor comigo mesma agora e foi preciso me permitir sentir e não só o perdão, a aceitação e a superação, mas a raiva também.

Todo ano eu escrevo no dia 26 de fevereiro, hoje não é diferente. Posso estar sentindo de uma forma diferente, senti a minha raiva, mas ainda sinto a saudade, a falta, sinto o tempo passar, as memórias ficando cada vez mais antigas.

Hoje eu sei que eu sinto um monte de coisas e é bom saber que eu posso e tenho o direito de senti-las, porque eu estou viva e viver é sentir e seguir

24h por dia, 7 dias por semana!

Uma semana acordando antes das 6h!

Desde a época da faculdade, onde eu trabalhava, estudava e percorria 50km todo dia, que eu não acordava tão cedo.

Sempre pensava naquela época da minha vida como um tempo que ficou pra trás e eu não tenho a menor ideia de como conseguia sobreviver.

Mas a verdade é que as fases passam, mudam. Depois da faculdade veio a gravidez, a chegada do meu bebê, os quatro meses de cólica, amamentação, alimentação, primeiros passos, palavras, desfralde.

Hoje meus desafios andam de mãos dadas com os da minha filha e tenho vivido com ela a adaptação na nova rotina desse ano. Primeira mudança de escola e agora de turno.

Nosso dia tem sido acordar todas as manhãs “beijinho e hora do banho”, preparo o café, separo uniforme, confiro o casaco na mochila, penteia o cabelo, lembra de escovar os dentes e desce pra esperar a van batendo papo no banquinho.

Ela: segue para a escola nova, espaços novos, pensando se vai fazer amigos, se acostuma com a rotina da van (a melhor parte na opinião dela), as dificuldades com o processo de ensino, os problemas na alfabetização que resultaram na mudança de colégio, a rigidez da escola nova com as regras, as novas atividades que agora se encaixam na rotina semanal.

Eu: Saio de casa sonolenta, tentando conciliar nas horas que tenho, a terapia, o esporte, encontrar amigos, ler o livro em cada espaço que der no metrô, escrever conteúdo, saber da família, trabalho e + trabalho, os livros da escola que ainda não chegaram, o aniversário dela mês que vem, a viagem na semana seguinte, pedidos a responder, ajustes de campanhas, acompanhar umas métricas, ler umas notícias, fazer pesquisa, escutar uma música boa e ainda tem mil coisas me esperando pensar sobre elas.

Nós: No fim da tarde receber ela de volta nos meus braços, encontrar uma expressão de felicidade naquele rostinho. Entrar em casa exaustas, tentar saber de tudo que aconteceu, pelo que ela fala e pelo material todo revisado. Dar o jantar, tentar organizar alguma coisa na casa, coloca a roupa suja na máquina, joga o lixo pra fora, coloca a roupa pra secar, toma banho, dentes, coloca ela na cama, massagem no pézinho (ela curte muito), responde um monte de mensagem, faz a meditação do dia que chega por WhatsApp,

PQP JÁ É TARDE PRA CARAL*@ e amanhã tudo cedo de novo!

Sai dessa internet e vá dormir!

Aí vou eu, exausta… enquanto lá na cabeça ainda penso que sinto falta de levá-la e buscá-la na saída do colégio, mas que ela está crescendo, vai ficar cada dia menos dependente. Sinto orgulho, sinto dor. Sinto sono.

Sábado – 12 de Janeiro

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Enfim reuni coragem pra desmontar a árvore de natal, desembolar o emaranhado de fios do pisca-pisca, lidar com a poeira da árvore “com neve”, abriu um espaço na sala onde penso botar uma mesa de apoio com uma planta mais pra frente. Varri tudo, pedi comida e sentei pra ver TV com Lis, e que preguiça.

Bati papo com um amigo antigo da faculdade e falamos sobre os nossos dilemas da profissão, horóscopo, emoções e mercado financeiro, tudo junto.

Fui ler e depois de alguns minutos um insight! Pensei “pego ou não pego o computador?”. Peguei e me joguei na cama para fazer e anotar as coisas que imaginei. Sempre me arrependi das vezes que não corri pra anotar uma ideia ou botar alguma em prática, elas tem vida própria e às vezes passam por mim e vão.

Essa inquietação que vezes cansa e  vezes deixa feliz… sempre penso o que é e o nome que tem, é criatividade? Capacidade de associação? Curiosidade? Eu sei lá. É o bichinho-carpinteiro que mora dentro da gente, diria o vovô.

Essa foto não tem nada com o enredo do dia de hoje, mas quando visitei esse lugar eu pensei as histórias que passaram por ele, eu contaria várias, sem ter vivido nenhuma. Eu ouviria muitas, nesse corredor aí até escutei algumas, registrei outras.


Se der vontade de criar, encontre a atividade 🤗 imaginação não tem limites, fique aqui e/ou voe longe, alimenta o teu bichinho.

Quando em 2019

Cuide dos teus olhos você que vê
Aprecie a beleza da vida, você que enxerga!
Admire, observe, contemple.

Sente cada gostinho na ponta da tua língua
Degusta
Devora o mundo.

Escuta aqui
Ouve as mais lindas melodias
As que fazem vibrar
Deixa o seu corpo pulsar

Fareja teu caminho de perfumes
Costura a estrada com as memórias dos melhores cheiros
Inspira ares que chegam para fazer tudo se mover

Inspira – É de você pro mundo
Expira – É o que existe dentro de você
Respira – Segue vivendo

Segura o que estiver ao alcance das tuas mãos
O que você quiser sentir na sua pele
Acaricia, desenha, escreve, texturiza
Sente!

Conjuga
Mistura
Acrescente

Sinta com todos os sentidos
Construa sentidos
Descubra novas maneiras de sentir

Em 2019, faz sentido sentir.

Respira e escuta

Hoje eu li um estudo que falava sobre a relação entre o cheiro e as memórias, de como relembramos as experiências pelo olfato.

Eu adoro o cheiro de coisa boa, gente que cheira bem, mas meu olfato é péssimo, extremamente deficiente. Respiro mal por uma narina e vivo alérgica, sempre entupida. Quase sempre tenho dificuldade para decifrar um cheiro comum, como de coisas queimando na cozinha.

Mas sons…
Ah! A música!!!
Ela mexe comigo de uma maneira…

Eu desenho situações inteiras com as minhas memórias musicais.
Sou meticulosa com as minhas playlists, música para ler, para descansar, dançar, para experimentar tudo no mundo.

Escuto o barulho da rua nos mínimos detalhes, às vezes ele me tira o sono, às vezes é chuva na copa da árvore, é vento ventando. Tudo vai indo, vai vindo.

Danço, gosto da música.

Uma voz, conversas, riso, choro, riso com choro, silêncio, quebra do silêncio, sotaque, idioma, com o corpo, com a voz, com instrumento, a onda, o mar, a cachoeira, um pássaro, o vento…

Passado, futuro, presente, comunicado, transmitido e sentindo na oralidade, no som.

Muitas vezes eu não respiro
Mas estou escutando!

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